terça, 14 fevereiro 2017 09:51

O corpo carnal como o entendemos ao toque

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Velvet N’ Goldmine convida o público a habitar o espaço, a assistir de pé à “ascensão e queda do corpo”. Flavio Leihan estreia-se em Santa Maria da Feira enquanto autor, embora pise o palco do cineteatro António Lamoso desde os 11 anos. Natural do concelho que agora é incentivado a despir-se de preconceitos, o artista falou em entrevista exclusiva ao Ondas da Serra sobre um espetáculo com data marcada para 4 de Março, às 22h00.

É a sua estreia em Santa Maria da Feira?
Posso responder sim e não. Sim, é a primeira vez que estreio uma criação da minha autoria na terra onde cresci. Não, como intérprete é o palco que piso desde os 11 anos. De qualquer forma é sempre bom voltar às origens.

Quais são as exigências que Velvet N’ Goldmine faz à plateia?
A peça é assistida de pé e o público é convidado habitar o espaço. Interessa-me acima de tudo o diálogo entre os intérpretes e os espectadores.

Veludo e mina de ouro. Como é que se combina estes elementos num espetáculo?
Mina como ascensão e queda do corpo devido à sociedade. Veludo pela dualidade entre o corpo limpo/transparente despido de preconceitos e emancipado da sociedade cão. O corpo carnal como o entendemos ao toque.

Velvet N’ Goldmine é a trilogia de um corpo andrógino. Quais são as três partes que compõem esta viagem rumo a uma realidade pós-apocalipse?
Essa mescla de fatos reais e fictícios dão a Velvet N’ Goldmine o status de uma biografia fictícia, sendo que, ao mesmo tempo, conta e não conta a história sombria e quase distópica dos meus processos de investigação. Isso não significa, necessariamente, que a visualização do espetáculo necessite de um manual de instruções, ou o espectador precise de perguntar a cada segundo o que simboliza tudo, ou qual é o enigma de cada sequência. Em vez disso o que posso acrescentar é que observem a paisagem grotesca, entre o kitsch onírico e o psicadelismo naturalmente a impor-se; observem aquele micro momento onde nos perguntamos onde vivemos, quem somos, para onde vamos e permita-se ser levado pela corrente, fazendo parecer 60 minutos 60 segundos.

Qual é esta nova abordagem sobre a identidade do corpo andrógino que o espetáculo propõe?
Falo de uma nova abordagem como uma espécie de cânone evolutivo. Uma entropia, onde analisamos a relação entre o corpo queer, o corpo sexual nas suas mais multidimensões, através da pré- ou da pós-disposição do corpo no espaço.

As suas criações são sobre o seu corpo e o que sente em relação a ele ou extravasam-no?
Extravasam-no.

Como é que um corpo sobrevive entre a masculinidade e a feminilidade?
Simplesmente tenho um corpo andrógino, que não é efébico mas que é andrógino: cabelo comprido, cintura fina, pernas longas, braços esguios e cara longa. Não é uma neurose, simplesmente trata-se de um mix-up com diferentes momentos de compreensão em limite de igualdade entre a masculinidade e feminilidade do meu corpo, só isso!

Qual é a visão real da sexualidade?
A meu ver, não existe um papel sexual biologicamente inscrito na natureza humana, ou uma forma variável de desempenhar um ou vários papéis sob esta corrente de definição pós-identitária. Mas posso afirmar que a orientação e a identidade sexual, ou de género, dos indivíduos são o resultado de uma construção social, estabelecendo um corpus de processos que sexualizam a sociedade como um todo. Uma forma de “homossexualizar” direitos e afirmar que todas as identidades sociais são igualmente anómalas.

Para mais informações sobre o trabalho de Flavio Leihan, consulte aqui.

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Autor

Ricardo Grilo

Histórias capazes de entrar em contacto com as emoções de quem as lê justificam a minha paixão pelo jornalismo. Natural de Santa Maria da Feira, acredito no potencial de um concelho em ensaios para escrever a sua autobiografia. Aos 24 anos, e enquanto colaborar do ‘Ondas da Serra’, procuro a beleza em escrever sobre uma terra tão especial.

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