Rostos de Fuste e Rio de Frades Adília de Almeida Ferreira, Adília de Almeida Duarte, Maria Emília Martins Ribeiro (esq. para dit.)
quarta, 22 novembro 2017 03:22

Rostos de Fuste e Rio de Frades Destaque

Classifique este item
(1 Vote)

No nosso projeto por vezes andamos na ria, outras nos mares, mas adoramos as montanhas. Por montes e vales, podemos pousar o olhar nas silhuetas curvilíneas e sensuais das paisagens serranas. O som é diferente e as pessoas talvez porque vivam mais isoladas, são mais calorosas. É por isto que Arouca nos atrai, mesmo depois dos incêndios terem delapidado parte da sua riqueza.  Mas nem tudo se perdeu, o melhor ainda lá está, as suas gentes, costumes, campos e animais.

A nossa última visita foi em Fuste e Rio de Frades e não saímos defraudados, foi uma jornada composta de várias histórias. Conhecemos a quinta da Srª Iracema, o seu cão “Kinder”, o porco "Tiago" e a vaca “Cabanas”. A história do cão desconhecido que nos acompanhou e das venturas e desventuras contadas pela filha de um antigo negociante de volfrâmio. Acabamos o dia a beber vinho e a falar de lobos com os donos do cão. Aqui ficam alguns rostos das pessoas que se cruzaram no nosso caminho e a quem agradecemos pela disponibilidade.

 

Alcino Silva e Palmira Moreira

Iniciamos a caminhada PR8 – Rota do Ouro Negro, em Fuste – Moldes – Arouca, junto à pequena capela de Santa Catarina. Vamos sempre cedo para estas viagens e acabamos sempre por nos atrasar, porque não resistimos ao encanto do campo. Por esta razão fomos visitar a quinta e animais da Srª Iracema, assunto já tratado noutro artigo. Quando acabamos começamos a caminhada e logo encontramos debaixo duma frondosa ramada um casal a trabalhar.

O homem chamava-se Alcino Fevereiro, tem 59 anos, um acidente feriu-lhe uma perna e ele não pode trabalhar tanto nos campos como gostaria. Antigamente trabalhava numa serração. Tem quatro cabras e algumas delas estavam ali perto a pastar. O cão resolveu medir forças com uma cabra.

A mulher lavava roupa num tanque, Palmira Moreira, conta 73 anos, em tempos trabalhou na agricultura e na floresta a cortar mato e mondar pinhais. Apontou como dificuldades da sua terra, “Temos uma estrada que é uma vergonha, estreitinha e fraca, falta-nos um supermercado, todo o que precisam temos que ir buscar à vila”.

O casal tem quatro filhos, dois casais, vivem todos na aldeia. Uma das filhas trabalha no lar e a outra “no monte”, a colocar pinhais a baixo. Em relação aos filhos, um conduz uma máquina numa empresa e o outro é funcionário da Sicomar em Arouca.

Nesse dia, iriam almoçar os restos de uns bolinhos de bacalhau do São Martinho, acompanhado por repolho cozido que o homem sofre do fígado.

O facto de termos estado algum tempo nesta local a falar com o casal, deve ter chamado atenção do seu cão. Só mais tarde nos apercebemos da sua presença e o animal acabou por fazer a caminhada connosco.

No final da mesma, como explicamos no artigo abaixo referido, fomos entregar o cão ao dono. Quem nos forneceu as indicações dos proprietários, foram três fortes mulheres que tinham acabado as suas tarefas nos campos. Quem se prontificou a vir indicar a casa dos proprietários foi a Maria Emília Martins Ribeiro.

Os donos ficaram muito contentes e deu motivos para outras conversas, regadas com um bom vinho americano. A Palmira Moreira, contou-nos que há cerca de meio ano, os lobos mataram e comeram-lhe um cão, chamava-se “Max”. A senhora disse angustiada “Tive muita pena daquele cão, chorei muito”. Fizeram o mesmo a uma vizinha, numa propriedade à entrada do lugar e numa quinta afastada.

Um dos cães estava preso pelo cadeado e pela manhã os donos foram dar com ele morto, “Só estava o pescoço segurado pelo cadeado”. O grupo composto pelas duas mulheres e o marido da Palmira Moreira, o Alcino Moreira, foram perentórios afirmar que por ali andam muitos lobos e eles têm medo. Muitas vezes têm que prender os cães junto das casas para as guardarem e também não irem estragar os campos.

Disseram que por ali tem havido ataques frequentes dos lobos, que comem cabras e ovelhas. No lugar de Adufe – Queimada, junto à Igreja, comeram uma cabra no meio da estrada. A Maria Ribeiro, disse ter medo dos lobos e que as pessoas não vão para longe, “Nem ao monte vamos sozinhas. Se for para ir, vamos umas duas ou três, buscar comida para o gado. Se ouvirmos rugir já pensamos que é um lobo. Eles andam aqui metidos no meio do lugar”.

A Palmira Moreira disse que os lobos têm andado por ali e já os viram recentemente pela manhã a caminhar na estrada, na entrada de Fuste onde diz Pedrogão. Só no dia anterior há noite viram três.

Os três disseram que eram contra a reintrodução dos lobos, porque lhe matam os animais e não lhes dão indeminizações. Esta situação é agravada pelas crianças que vivem na aldeia, agora que as noites chegam mais cedo. Os pais não arriscam que as crianças venham sozinhas da escola a pé, quando saem da camioneta. Muitas não queriam ir para a escola, “Mãe não vou para a escola tenho medo dos lobos”, “Mãe venha-me buscar à noite que eu tenho medo dos lobos”. A Maria Ribeiro rematou “Andamos cheinhos de medo”.

      

Carlos Martins

Fomos encontrar Carlos Martins, habitante de Fuste, com 46 anos, a cortar erva para as suas cabras. Trabalha no ramo da madeira. Recordou os incêndios de 2016 que queimaram a floresta à volta da aldeia, pouco restou. Tem duas filhas, uma vive em Arouca. É dos poucos que dizem não achar difícil viver no local. Sempre trabalhou nas terras, a próxima cultura que ali vai tirar é o milho, mas só lá para abril do próximo ano é que vão semear. Nesta fase os campos só têm erva para o gado. Mas antes de plantarem as sementes têm que lavrar as terras, lá para março ou abril.

 

Alcides DuarteAlcides Duarte

Neste percurso notou-se que junto à aldeia de Fuste algumas pessoas trabalhavam nos campos. Mais uns metros e encontramos Alcides Duarte, com 79 anos, também de Fuste. Andava a podar as videiras, usando serrote, tesoura e uma fouce para cortar os galhos e vimes para as amarrar.

Nestas ramadas produz vinho nacional e americano, que é um tipo de vinho misto, usando uva tinta e branca. Na altura em que o encontramos estava a trabalhar nas de da raça tinta. Foi agricultor toda a vida.

A sua mãe pouco tinha e ele andou em novo a servir lavradores. Teve uma experiencia de nove meses em França, mas como lhe faleceu um filho não regressou. Mais tarde continuou a trabalhar nas terras como caseiro. Os seus patrões eram solteiros e ele tomou conta deles e recebeu as terras como herança.

Em média tira umas sete pipas de vinho, com 500 litros cada uma. Fica com vinho para todo o ano, antigamente ainda vendia algum, mas agora não há quem compre, “Como não vendo o vinho, algumas videiras já comecei a cortá-las”. Mas o vinho que produz, chega para si e para os seus cinco filhos. Ainda pisa vinho há moda antiga, ficou combinado e deu-nos o seu contacto para o próximo ano tentarmos ir ao local para fazermos um artigo ou um vídeo.

Depois de fazer a poda, de maio em diante do próximo ano começa a sulfatar quinzenalmente até julho, depois é colher, pisar e armazenar o vinho.

Ao longo do ano vai tirando da terra, milho, batata, feijão, centeio, já teve nove, mas agora só tem duas vacas da raça arouquesa. Tem também seis cabras, galinhas e coelhos.

 

 

Natália Marques Naia Ferreira

Depois de serpentarmos pelas serras, chegamos ao nosso destino, Rio de Frades e depressa encontramos presença humana, Natália Marques Naia Ferreira, com 82 anos de idade, transportava ao ombro aros de pipo que disse ser para vender para sucata.

Sempre foi agricultora, antes ainda fazia uns trabalhos no campo, mas agora a idade já não lhe permite. O marido já faleceu há mais de 30 anos. Teve 4 filhos. A vida é feita de venturas e desventura e ela disse com magoa, “Tenho um, o mais novo, que está ali no cemitério que morreu esbarrado”. Vive com o filho que tem 57 anos e está desempregado. Disse com risos há pergunta se tinha animais, “Só tenho três bicos e já chega para mim” (galinhas).

 

Alice SilvaAlice Brandão Gomes da Silva

Em Rio de Frades parece que os homens desapareceram não vimos nenhum, só mulheres. Depois de conversarmos com a Natália Ferreira, encontramos a Alice Brandão Gomes da Silva, com 67 anos de idade.

O pai José Brandão Ferreira da Silva, negociou sempre com animais até morrer. Era conhecido em todo o lado, mesmo na Serra de Montemuro pelo “Zé Carniceiro”. Mas a dada altura começou também a negociar em volfrâmio. Umas vezes ganhou uns trocados e outras perdeu tudo, até os campos e casa foram penhorados. Por causa disso teve que andar uns meses fugido e escondido da PIDE, numa aldeia que se chama Covas do Monte. Nem a mãe sabia o local exato onde ele estava. A policia queria prende-lo porque ele não podia comprar o volfrâmio. O minério tinha que ser vendido à companhia autorizada pelo governo. O que acontecia é que o seu pai pagava mais. Um quilo de volfrâmio era vendido na altura à companhia a um ou dois escudos. O pai pagava acima desse preço e ainda assim conseguia ganhar dinheiro. A companhia era de um lado do rio dos alemães e do outro dos ingleses. O pai arranjou problemas porque infiltrou-se nessa rede de venda do minério e não vendia a quem o Estado queria. O minério antes de ser vendido tinha que ser lavado e separador numa máquina “Lavadora”, para depois ser usado em armamentos de guerra. O minério do pai fugia a esta etapa.

Com o aumento do turismo adaptou uma casa para alugar e até tem uma coleção de pedras com volfrâmio para mostrar aos seus hóspedes. Os mesmos começaram a fazer-lhe perguntas sobre aquele minério e ela não tinha nada para mostrar. Tem recebido nessa casa Franceses, Alentejanos, Algarvios e Albicastrenses (Castelo Branco). Caso alguém a queira contactar deve ligar para o n. 256 946 175.

A sua casa dá para nove pessoas, dois quartos onde podem dormir seis pessoas, cada um tem três beliches, um sofá que faz cama de casal. Tem camas para nove pessoas. A casa está equipada com cozinha e todos os eletrodomésticos indispensáveis. Tem também uma esplanada para o verão e um grelhador. O preço varia se os hospedes trazem ou não lençóis. Os preços são para entrada à sexta-feira e saída no domingo a que horas quiserem.

Nesta zona podem fazer caminhadas, podem ir para o outro lado do túnel e da mina, que dá para acampar ou tomar banho.

 

Fátima Teixeira Gomes Tavares

Descemos a encosta deste lugar e fomos até junto do rio onde tem uma ponte com a placa do lugar. Aqui encontramos Fátima Teixeira Gomes Tavares com a sua filha a descarregar da caixa de carga duma pequena carrinha, achas de madeira para uma cliente. Depois de terminar a descarga iria regressar Arouca onde reside e o marido que tem uma firma de madeiras. Aproveitamos para pedir uma pequena boleia para não termos de voltar a subir o monte pela estrada. Queremos falar com toda a gente e as horas passam a correr. Deu-nos amavelmente boleia, o cão é que não queria vir. A senhora deixou-nos perto do campo de futebol de Quelhas – Ponte de Telhe, onde nos informaram que existe um atalho pela serra para Fuste.

Finalmente chegamos ao nosso local de partida, já se fazia noite. Próxima missão encontrar alguém que soubesse quem era o dono do cão. E encontramos três mulheres que no final do dia de trabalho, colocavam a conversa em dia.

 

Joana Santos e Tiago Leite

No regresso por este “atalho” encontramos depois do campo de futebol o casal de namorados composto pela Joana Santos, com 24 anos de idade, de Arrifana e o Tiago Leite, com 28 anos de idade, residente em Pindelo – Oliveira de Azeméis. Os mesmos falaram-nos um pouco de si e que já mencionamos no artigo sobre o percurso.

 

Três mulheres

A Maria Emília Martins Ribeiro, é agricultora e tinha andado a sachar uma horta, Adília de Almeida Duarte, com 55 anos, tinha andado a apanhar lenha de poda para as cabras comerem.  Estava coberta de folhas de videira, no campo nada se perde, tudo se aproveita. A mais idosa, Adília de Almeida Ferreira, com 73 anos de idade, tinha também andado, apanhar folhas de videira para as cabras comer, que acondicionou num saco.

Quem tem animais é assim, têm que se preocupar com a sua alimentação e dos seus “bichos”. E assim foi, já tínhamos saudades destas andanças, deste tipo de pessoas, da autenticidade. 

 

Leia também os nossos artigos:

 

 

Lida 424 vezes

Autor

Ondas da Serra

Ondas da Serra® é um Orgão de Comunicação Social com distribuição da informação pela Internet, que visa promover a identidade regional e o turismo através da promoção da cultura, património, monumentos, museus, desporto, economia, gastronomia, ecologia e coletividades dos concelhos da região norte do distrito de Aveiro, Ovar, Santa Maria da Feira, Espinho, São João da Madeira, Oliveira de Azeméis, Vale de Cambra, Arouca e dos restantes municípios desta região.

Itens relacionados

Drave | Galeria - Yoga nas Ondas da Serra

O ONDAS DA SERRA e o Espaço Yoga de Ovar organizaram, neste outono, um passeio a Drave. Desde 2003 que esta "Aldeia Mágica", enfiada numa cova criada pelo encontro das serras da Freita, São Macário e Arada, serve de Base Nacional ao Corpo Nacional de Escutas. Viaje com o nosso grupo, de 24 caminheiros, entrando na galeria que preparámos para si. Fotos de Fernando Manuel Oliveira Pinto.

Mulheres de coragem

Apesar de a Morte ser a porta da Vida – como está escrito num dos belíssimos painéis azulejares do Cemitério de Ovar –, a perda de um ente querido é sempre um acontecimento difícil de superar. É nestes momentos dolorosos que entram em cena profissionais dedicados que prestam uma série de serviços fúnebres à família enlutada, a qualquer hora do dia, de forma a atenuar a sua dor, como é o caso das simpáticas senhoras da Agência Funerária Celina Soares & Emília Fernandes Lda. O ONDAS DA SERRA foi até ao n.º 49 da Rua Visconde de Ovar, num fim de tarde, e esteve à conversa com estas mulheres de coragem.

Cenas campestres de Regoufe

Diz-se muitas vezes acertadamente que a beleza e magia estão no olhar de quem observa, este verbo foi usado intencionalmente, porque observar é diferente de ver, assim como escutar é diferente de ouvir.

Faça Login para postar comentários
Pub