quarta, 01 fevereiro 2017 20:38

Tanoaria "Farramenta"

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Fomos de Ovar a Esmoriz pela Estrada Nacional 109. Em vez de virarmos para a Avenida da Praia, perto do edifício da Junta, seguimos mais alguns metros pela Av. 29 de Março, até encontrarmos, do lado esquerdo, o n.º 779. Filipe Octávio Fernandes, di­retor de vendas da tanoaria JOSA­FER, foi o nosso anfitrião.

Filipe Octávio Fernandes, um dos filhos do atual sócio gerente, José António Fernandes, começou por explicar o porquê do nome “Farra­menta”, alcunha pela qual também é conhecida esta tanoaria centenária: “O meu avô Joaquim Dias Ferreira era conhecido em Esmoriz por Farramenta. Antigamente os tanoeiros tinham nas suas praças, no local onde se faziam os barris, uma caixa para guardar a ferramenta depois de um dia de trabalho. O meu avô achava que não valia a pena estar a arrumar a ferramenta toda e deixava-a pousada na praça dele. Então, os colegas, por brinca­deira, escondiam-lhe os utensílios de ta­noeiro. De manhã, o meu avô perguntava aos colegas quem é que lhe tinha rou­bado a farramenta. Ficou a alcunha. Em 1962, por questões comerciais, alterá­mos o nome para JO­SAFER, que é João António Fernandes, o nome do meu pai”.

A primeira ta­noaria foi fundada em 1912 numa ga­ragem, por Manuel Dias Ferreira, bisavô de Filipe Fernandes. São várias gerações a trabalhar neste tipo de indústria familiar, que tem passado por altos e baixos. Existiam mais de 40 tanoarias em Esmoriz. Agora são duas: esta e a tanoaria Ramalho, que fica ali bem perto, na Rua Abade Pinheiro. Alguns tanoeiros reformados traba­lham em casa, em garagens, mas são processos muito artesanais.

“Isto que está aqui a ver é ma­deira de castanho português e car­valho francês e americano, acácia ou austrália portuguesa. O castanho compramos nas zonas altas de Por­tugal, na Serra da Estrela, na Guar­da, Gouveia e Manteigas. Vêm para cá em toro e nós serramos a madeira e fazemos estas aduelas. Depois é engradada de forma que esteja a secar e a apanhar vento”, diz Filipe Fernandes, apontando para as torres de madeira [na foto].


Segundo alguns entendidos na matéria, esta zona é especial para o tratamento da madeira, porque o mar está muito próximo das ta­noarias e a aragem ajuda a tratá-la, mas tem de estar a secar no estaleiro durante 24 meses. “Aquela ali, a escura, já está seca, em condições de ser levada ali para dentro da fábrica. Cinquenta por cento do nosso mercado são barris novos, e os outros cinquenta são barris usados”, refere o jovem empresário, enquanto nos dirigimos para o interior da tanoaria. “Faze­mos todos os tipos de barris, mas hoje estamos a fazer charutos. São pipos, mas com um formato diferen­te, de 150 litros. Antigamente, estes charutos eram muito usados nas tascas de Lisboa, porque, como não havia muito espaço, eram colocados ao alto”, esclarece.

Esmoriz é a capital da Tanoaria, mas este setor, para poder vingar, tem de se modernizar e de apostar na formação de jovens tanoeiros. A tanoaria "Farramenta" alcançou o mer­cado indiano: "Vender para a Índia era uma meta que tínhamos”, conta Filipe Fernandes, com os olhos a brilhar, como se, por instantes, um fogacho lhe acendesse a alma.

 

O Núcleo Museológico da Ta­noaria “Farramenta” está aberto de segunda a sábado, das 8h às 12h e das 13h às 17h. Encerra aos domin­gos e feriados.

Saiba mais sobre esta tanoaria do concelho de Ovar, em http://tanoariajosafer.com/

TEXTO e FOTOS: Fernando Pinto

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Autor

Fernando Pinto

Fernando Manuel Oliveira Pinto nasceu no dia 28 de junho de 1970, em Ovar. Jornalista profissional, fotógrafo e realizador de curtas-metragens de vídeo. Escreve poesia e contos. A pintura é outra das suas paixões. Colaborador do "Ondas da Serra".

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