quinta, 30 março 2017 01:42

Joaquim Velindro: "Ainda me pedem caldinhos" Destaque

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Joaquim Sousa Velindro, mais conhecido em Ovar por "Quim barbeiro", nasceu em Águeda no dia 10 de dezembro de 1951. É proprietário do cabeleireiro de homens "Salão Azul", situado na Rua dos Mártires da República.

Disse-me há pouco, enquanto fazia a barba ao Ti Manuel Paciência [nas fotos], que veio morar para cá em 1958, aos 7 aninhos. Porque é que a sua família se mudou para a então Vila de Ovar?

QUIM BARBEIRO - Viemos viver para Ovar porque o meu pai [Joaquim Pessoa Martins Velindro] foi trabalhar para a Imprensa Pátria. Era ele que fazia o "Notícias de Ovar".

Se o seu pai era tipógrafo, porque é que optou por este ofício, pela arte da tesoura e da navalha? 

Fui para barbeiro por causa de uma brincadeira. Cheguei da escola e o meu pai disse para eu ir cortar o cabelo ao Ti Joaquim da Poça. Eu morava na Rua Nova, e quem estava lá a aprender a arte de barbeiro era um moço. Saiu um cliente da cadeira e ele pegou na escova para limpar os cabelos da roupa, e o senhor deu-lhe dois tostões de gorjeta. Eu vi aquilo, e, quando cheguei a casa, pedi ao meu pai para ir trabalhar para a barbearia. Tinha 8 anos. O moço disse que não gostava de estar ali preso, ao alto com o profissional, a ver como se fazia, e foi-se embora. Eu andava na Escola de S. Miguel, e quando saía das aulas ia para lá aprender. E lá estava eu ao alto. Ao fim de uma semana já estava a fazer barba. Ia trabalhar para lá com a fisga no bolso e com as pedrinhas. Um dia, o José Santa Camarão, o famoso pugilista vareiro, estava sentado à espera, para fazer a barba, olhou para mim, e perguntou-me porque é que eu tinha as calças cheias de sangue. Meti a mão no bolso e tirei os pardais. Disse-me para eu lhe fazer a barba, que depois íamos para casa dele depenar e comer o petisco. Mas foi na brincadeira, porque quem os comeu fui eu. A minha mãe depenou-os e fritou-os.

O Joaquim deve ter muitas histórias para contar aos clientes... 

Como aquela do morto que contei no outro dia... Tinha eu 9 anos de idade. O meu vizinho faleceu, e a minha mãe pediu-me para eu ir fazer a barba ao defunto. Peguei na navalha e no pincel, e lá fui eu. Como ele estava deitado do lado direito, era um problema. Eu só via uma alternativa, ir para cima dele. Quando coloquei os joelhos em cima do estômago do defunto, saiu um som da boca do morto, e ele abriu os olhos. Saí a correr pela porta fora, e fui dizer à minha mãe que o vizinho estava vivo. Andei muito tempo sem fazer a barba aos mortos, porque apanhei um susto muito grande. Era um miúdo... Ganhei experiência nesse dia... Depois comecei a fazer caldinhos, os vincos que se faziam no cabelo. Os velhinhos ainda pedem para eu lhes fazer caldinhos.

E depois de ter aprendido a fazer caldinhos?

Depois, rebentou a guerra em África, e o meu patrão, o Ti Joaquim barbeiro, resolveu ir a salto para França. Pedi para ir com ele, mas, como era pequenino, o meu pai não deixou. Tinha 9, 10 anitos. Como ele se foi embora, fui trabalhar para o Abel e para o Martinho, a pegar ao Estúdio Almeida. O Martinho era o dono, e quando se foi embora, foi o Abel que ficou com a barbearia. Fiquei lá com ele. Entretanto, apareceu o Carvalho, em frente ao Progresso, e ele foi falar com o meu pai, sem eu saber de nada. Naquele tempo era assim, era o meu pai que mandava. Quem desse mais era para onde eu ia. Depois o Sr. Manuel Pais foi falar com o meu pai, e eu fui trabalhar com ele no salão que fica na Rua Dr. Manuel Arala. Em 1967 fui para a barbearia Janota, do Idálio e do Abel, perto do chafariz Neptuno, do outro lado da rua. Desta vez quis fazer perrice ao meu pai, e também porque ia voltar a trabalhar com o Abel, com a pessoa que me tinha ensinado. Gostava muito do feitio dele. Casei em 1968 e estive nessa barbearia mais um ano. Saí de lá e voltei a trabalhar com o saudoso Sr. Manuel Pais.

Em que ano o Quim foi à tropa?

Em 1972. Fui para Aveiro e depois para Castelo Branco, onde fui barbeiro do Regimento de Cavalaria N.º 8. Sabe, nós fizemos o 25 de Abril! Estávamos todos armados, com os carros blindados na rua, para irmos para Santarém, e depois para Lisboa. Quando vim da tropa, voltei para o Salão Pais. Estive lá até 1980, ano em que abri, com o José Pinto Rachão, o Salão Azul. O meu sócio esteve aqui pouco tempo.

O seu sobrinho Vasco disse que o cliente tem confiança no barbeiro porque ele sabe ouvir e guardar...

Aqui no salão também aprendemos muito com os clientes: a ser contabilista, enfermeiro, psicólogo, dentista, até a ser padre e conselheiro matrimonial. Na profissão de barbeiro é preciso sabermos ouvir, para depois sabermos responder. Eu aprendi com os barbeiros profissionais... Na minha infância, o que eu gostava mais de fazer era a coroa ao padre Francisco, das Freiras. Tinha de fazer tudo redondinho, sem tesoura, só com a navalha. Depois dava-lhe o espelho para ele ver se tinha ficado bem feita, e ele começava a brincar comigo, e eu ria-me com ele. Ensinei o que sabia aos moços que por aqui passaram, ali ao meu sobrinho Vasco Rodrigues. Lembro-me de, na década de 60, ir fazer a barba aos presos da Cadeia de Ovar, com o meu patrão. Às quartas e sábados, os reclusos estavam à nossa espera na sala de visitas. Quando chegávamos, era uma alegria para os presos, porque levávamos novidades. Gostava de os ver fazer cintos e tapetes com os maços de cigarro. O Sr. Pereira, o carcereiro, deixava-nos andar lá dentro à vontade. Um dia levou-me a ver a solitária, onde colocam os presos mais perigosos. Era uma sala pequenina escura, sem grades. Fiquei a pensar naquilo algum tempo... 

TEXTO E FOTOS: Fernando M. Oliveira Pinto

MANUEL PACIÊNCIA – O REI DAS BICICLETAS EM OVAR

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Lida 690 vezes Modificado em quinta, 30 março 2017 04:57

Autor

Fernando Pinto

Fernando Manuel Oliveira Pinto nasceu no dia 28 de junho de 1970, em Ovar. Jornalista profissional, fotógrafo e realizador de curtas-metragens de vídeo. Escreve poesia e contos. A pintura é outra das suas paixões. Colaborador do "Ondas da Serra".

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