quarta, 03 maio 2017 23:47

Chefe Guimarães — Escuteiro de Ovar Destaque

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Nasceu em 2 de janeiro de 1934, na cidade berço de Portugal, e todos o conhecem por CHEFE GUIMARÃES. Joaquim Machado Costa Guimarães é um exemplo a seguir pelos escuteiros do Agrupamento 549 de Ovar, do qual é Chefe Honorário.

Jornalista Fernando Pinto - O Chefe Guimarães não nasceu em Ovar... Que bons ventos o trouxeram a terras vareiras?

CHEFE GUIMARÃES - Nasci atrás do Castelo de Guimarães, no dia 2 de janeiro de 1934, e vim para cá aos 12 anos. Os meus pais vieram trabalhar para a família Colares Pinto, que tinha uma fábrica de fazer pentes, travessas e colares para senhora, calçadeiras...

 

Quando veio morar para Ovar já era escuteiro?

Sim, era "Lobito", só que não me cheguei a fardar. Mas quando vim para cá não entrei logo para os Escuteiros, porque eu, como estava a morar no Furadouro, não sabia  que havia escuteiros em Ovar.

 

Onde é que fez a sua promessa de explorador?

Ali nos Combatentes, onde hoje é a Escola. Foi aí que conheci o padre Torres, o Anselmo, o Elias, o Figueiredo. Era aí que ficava a Sede do Agrupamento 66. Temos ali na parede, como pode ver, a bandeira do antigo agrupamento, que está estimada porque eu mandei-a encaixilhar para que não se estragasse. Esta estava no Museu de Ovar, onde tínhamos a nossa Sede. Depois os escuteiros acabaram, por não haver rapazes suficientes para continuar... Casei-me nessa altura. Mas eu nunca desisti do Escutismo.

 

O atual Agrupamento de Ovar é o 549 e não o 66... O que é que levou a esta alteração de número?

Quando o Grupo Scout 66 de Ovar acabou por falta de escuteiros, outro agrupamento apanhou esse número. Mas não deveria ser assim. Fizemos pressão para isso mas não conseguimos... É um desejo meu recuperar o antigo número desse grupo, formado em 1931, ainda eu não era nascido.

 

Sente-se algum saudosismo na sua voz... Como era vivido o escutismo na sua época?

Antigamente, os escuteiros não podiam andar com a camisa desapertada no colarinho, nem de mangas arregaçadas. E só os padres é que andavam de calças compridas. Nós andávamos de calções. Só havia rapazes. Agora os rapazes podem andar misturados com as raparigas. O que importa é que todos cumpram com as suas obrigações. Um escuteiro tem de praticar uma boa ação todos os dias, tem de ajudar o próximo. Um bom escuteiro sempre será um bom chefe de família, porque o dever de um "Escuta" começa em casa, respeitando os filhos e a esposa.

 

Em que ano assumiu a responsabilidade de ser chefe dos Escuteiros de Ovar?

Quando o padre Bastos veio em 1975 para Ovar não havia Escuteiros. Um dia, o Sr. abade ao falar com o Toni, que tinha sido escuteiro, mostrou vontade de que voltasse a haver escutismo em Ovar. E logo apareceram várias pessoas. Eu fui uma delas... [Hoje] sou apenas Chefe Honorário.

 

Quer partilhar algum episódio que o tenha marcado?

Tinha 16 anos quando recebi um castigo que me marcou para a vida toda. Foi num acampamento que fomos fazer ali em Estarreja. Antigamente, os escuteiros andavam com uma faca de mato. Agora é proibido. Cheguei lá e espetei a árvore... O meu guia avisou-me que o chefe estava a olhar para mim, e eu não liguei, deixei lá estar a faca. O chefe foi ter comigo e perguntou-me se tinha sido eu a fazer aquilo. Disse que sim, e ele disse-me para eu deixar a faca onde estava. Obedeci. A gente tinha mais respeito pelo nosso chefe do que os escuteiros de agora. No dia seguinte, levou-me até ao sítio da árvore... E a árvore estava chorar. A resina estava a cair pelo pinheiro abaixo. O chefe virou-se para mim e disse-me para eu guardar a faca. Fomos comer. Rezávamos antes da refeição para agradecer o alimento. Agora não se usa muito isso... Fizemos a oração, comemos, e o chefe ordenou que ninguém lavasse o seu prato. Antigamente, cozinhava-se a lenha, não havia fogões. O chefe mandou fazer uma roda e disse para eu ir para o meio. Queria saber que castigo me haviam de dar por eu ter espetado a faca na árvore. Mas ninguém falou... Então, o chefe virou-se para mim e mandou-me lavar a louça toda do agrupamento. Fui para a beira do rio, e estive lá quase três horas... Naquele tempo não havia detergente, nem esfregões. A louça era lavada com areia, e as panelas de alumínio tinham de ficar branquinhas. Estraguei os meus dedos todos naquele dia a esfregar. Ainda apareceram lá dois escuteiros para me ajudar, mas o chefe não deixou. Nunca mais espetei uma faca numa árvore...

 

TEXTO e FOTOS: Fernando Pinto

Lida 3546 vezes Modificado em quinta, 04 maio 2017 00:16

Autor

Fernando Pinto

Fernando Manuel Oliveira Pinto nasceu no dia 28 de junho de 1970, em Ovar. Jornalista profissional, fotógrafo e realizador de curtas-metragens de vídeo. Escreve poesia e contos. A pintura é outra das suas paixões. Colaborador do "Ondas da Serra".

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