‘Cão ou Sem Casa’ fala pelos animais errantes da Feira que não têm voz Projeto ‘Cão ou Sem Casa’, Joana Lamoso, Ana Tavares, Joana Rodrigues e Catarina Adão
domingo, 29 julho 2018 01:26

‘Cão ou Sem Casa’ fala pelos animais errantes da Feira que não têm voz Destaque

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A história mais difícil dos três anos de projeto ‘Cão ou Sem Casa’ pertence a Vitória. Encontrada há cerca de três meses na rua com um golpe de calor e em convulsão há 5 horas, a gata sobreviveu ao que a vida parecia querer terminar. Joana Lamoso, Ana Tavares, Joana Rodrigues e Catarina Adão partilharam a sua história esta Sexta-feira, 27 de julho de 2018, à procura de uma adoção responsável. Desde 2015, já salvaram mais de 150 animais.

 

Joana Lamoso

27 anos, trabalha em comunicação.

“Falar pelos que não têm voz é a minha missão. Apaixonada pelo lado social da vida, pela oportunidade de dar sem receber, e poder passar a mensagem dessa dádiva aos que me rodeiam.

Em 2015, criamos o projeto ‘Cão ou Sem Casa’ de forma a formalizar adoções responsáveis de uma forma mais consciente, mais ágil e eficaz. Lutamos, juntas, por um mundo onde a desigualdade entre os animais racionais e irracionais deixe de ser um caso de estudo. Não vamos desistir.”

 

Ana Tavares

Funcionária administrativa e protetora de animais de rua, natural de Caldas de S. Jorge.

“Em 2015, a Joana Lamoso sugeriu-me a criação da página, de forma a fotografar profissionalmente e divulgar os animais de rua que albergava na altura, e dessa forma aumentar a probabilidade de adoção. Abracei o projeto desde início pois sabia que aqui residia mais uma oportunidade de ajudar não só os animais que resgatava, mas também o de outros particulares 1ue se dedicam a esta causa voluntariamente e sem nenhum tipo de apoio. Nesta aventura cruzamo-nos com pessoas que lutam ao nosso lado e partilham o nosso sonho de assistir um dia à ‘extinção’ de animais abandonados, desprotegidos e maltratados.”

 

Joana Rodrigues

27anos, nascida no planeta terra (mais exatamente no Porto). Fotografa para o projeto.

“As minhas motivações assentam só e apenas no facto de sentir que é meu dever fazer algo que ajude quem não tem “voz”. Faz todo o sentido para mim fazer parte de algo que promove o amor, sensibiliza corações e acima de tudo mostra as pessoas que não há um animal que não seja bonito. Um bocadinho de cuidado e tempo torna possível retirar de cada cão ou gato que é fotografado a beleza interior que tem intrinsecamente.”

 

Catarina Adão

Fotógrafa, natural de São João de Ver.

“Inicialmente, o principal motivo que me levou a abraçar o projeto foi o facto de me estar a iniciar na área de fotografia e ter interesse em absorver conhecimentos práticos e técnicos no máximo de contextos possíveis. Senti que o projeto tinha potencial para adquirir uma imagem cuidada e realmente com qualidade, potenciando assim as adoções. Passados sensivelmente 3 anos o motivo que me faz continuar é ligeiramente diferente do inicial. Agora vejo e sinto as dificuldades deste setor de voluntariado e sempre que tenho horas livres organizo-me para ajudar. Posso dizer que passei do interesse pessoal e técnico para o humanitário.”

 

  1. Como é que se conta a história de vida de um cão ou gato?

Primeiro, contamos com o pior cenário. Com o abandono, a tristeza no olhar, a inocência de não saberem que foram abandonados, traídos pelos donos. Pela vida. Ouvindo toda a história dos protetores que os recolheram, ou que de alguma forma os aceitaram como família de acolhimento (a quem agradecemos todos os dias) conseguimos ver para além da lente. Fotografamos e divulgamos a beleza exterior e alcançamos a alma, o coração. Como se eles soubessem que aquele é último desafio, antes de encontrarem uma família para a vida toda, como muitas vezes cantamos aquando das sessões.

 

  1. Quantas vidas é que já salvaram desde 2015?

Desde 2015, aquando do início do projeto, salvamos mais de 150 animais. Costumamos sentir a necessidade de os contabilizar, ao final de cada ano, para começar o seguinte com a consciência de que se 4 pessoas o fazem, sozinhas, no ano seguinte, poderemos atingir números maiores. O importante é ter a capacidade de ver para além do animal irracional. É uma vida, quer salvemos 1 ou 150, salvamos vidas.

 

  1. Como é que surge o projeto e qual é a missão?

Os motivos que unem massas humanas que acreditam e lutam em causas maiores são diversos. Acreditamos que esta é uma luta de todos os que tiveram a bênção de estar neste planeta, neste mundo, nesta cidade, na rua onde vivem.

Também acreditamos que, por outro lado, a batalha é só dos mais fortes. Ter a consciência de que o problema existe, foi o primeiro passo, tudo o que adveio, a necessidade de dar resposta a um problema errante de abandono animal em Santa Maria da Feira é uma realidade desoladora, descontrolada, e se na nossa batalha do dia a dia, fizemos a diferença, o projeto cão ou sem casa cumpre a sua missão.

O projeto surge pelas mãos de 4 jovens feirenses, que os fotografam e divulgam animais, que nos chegam de pedidos de ajuda de particulares, como nós, e até de associações, de forma a tornar a adoção mais eficaz.

 

  1. Tiveram algum animal que fotografaram que não foi adotado?

Depois de os fotografarmos, eles levam um pedaço de nós. Acreditem ou não, eles são-nos gratos as 7 vidas que têm e a sensação de os estamos a mostrar um caminho, um final feliz, preenche-nos e também leva pedaços de nós.

Existem casos que esperam até 2 e 3 anos para arranjar uma família, existem os que são devolvidos, porque foram anotados em bebés e depois cresceram… Existirá sempre a sensação de que se não aconteceu, é porque não tinha de ser. E isso, move-nos.

Nem todos os casos são facilmente adotáveis, muitas vezes, os que acreditamos serem de mais fácil adoção, provam-nos o contrário. No fundo, para que nos recordemos de que o amor não é formatado para ver raças, estatutos ou cores.

 

  1. Qual foi a história de vida mais difícil que tiveram de fotografar?

A da Vitória. Foi publicada esta sexta-feira na página, coincidentemente. Uma gatinha jovem, encontrada na rua com um golpe de calor e em convulsão há 5 horas. Foi resgatada por duas protetoras particulares.

O estado dela era tão grave que muitas pessoas criticaram quem estava com o caso por não procederem à eutanásia. Mas as protetoras sempre se defenderam afirmando que tinham falado com a equipa médica que socorreu a gata e, embora fosse um caso difícil, havia hipóteses de recuperação. Seria improvável, seria lento, mas havia essa chance.

Ela esteve em semi-coma e ao longo de 3 meses foi recuperando os movimentos, o equilíbrio. Ficou com um ligeiro desequilíbrio motor, resultado do dano neurológico, mas anda, brinca, come, vai à caixa de areia – faz uma vida completamente normal. Para complicar tudo a Vitória tem o vírus da leucemia felina (FeLV +).

Isto é, terá de ser o que nós chamamos de “filha única” ou então só poderá conviver com outros gatinhos com a mesma patologia, uma vez que a doença é contagiosa entre felinos. Este é um exemplo de situações que mais nos completam caso a adoção se concretize. Porque terá que ser um protetor especial, que aceite a Vitória com todas as suas limitações. Isso não é fácil encontrar, tem de ser uma pessoa que se destaque na dedicação e amor aos animais, uma pessoa com um grande coração, para querer acolher um ser assim.

 

  1. Fotografam apenas os animais ou também os acolhem e tratam?

Uma questão pertinente. O projeto cão ou sem casa, apenas fotografa e divulga animais nas redes sociais próprias: Facebook e Instagram.

O trabalho que, enquanto particulares possamos fazer nas ruas por onde vamos passando, e infelizmente, tropeçando nesta triste realidade, nada tem haver com o projeto cão ou sem casa, no entanto, complementa-se pela mesma necessidade de acabar com o sofrimento dos demais.

 

  1. Quem quiser adotar algum dos animais que fotografam o que deve fazer?

Nas nossas páginas de Facebook e Instagram quando divulgamos um apelo de um animal, associamos sempre uma descrição do caso - de onde veio, como foi capturado, a história que cada protetor nos permite contar - assim como o a zona onde está o animal sinalizado assim como o contacto do adotante.

Se houver o desejo de fazer a adoção responsável, a mesma é feita diretamente com o adotante. Nós apenas fotografamos, divulgamos e fazemos a ponte entre histórias com finais felizes.

 

  1. Existem muitos animais errantes no município de Santa Maria da Feira?

 

Existe uma preocupação em massa para colmatar este, que é já um assunto de saúde pública. O problema dos animais errantes no concelho está descontrolado. Não há resposta, não há campanhas de sensibilização para adoção, esterilização em massa, colocação de chip, nem tão pouco a recolha dos animais que vagueiam punidos de doenças e fome pela cidade, pelo concelho!

Um problema que o município não quer ver, e que, enquanto partes integrantes de um movimento cívico que prevê colmatar estes devaneios, pedimos ajuda para continuar a nossa batalha, muitas vezes inglória.

 

  1. Quais são as próximas etapas do projeto?

O projeto Cão ou Sem Casa precisa de crescer, pela necessidade de dar resposta a um leque maior de casos errantes. Somos 4 voluntárias, com empregos, horários, famílias, mas com muitos sonhos. O que desejamos, numa primeira instância, é ter um espaço onde possamos fotografar com mais qualidade. Um espaço desativado, por exemplo, onde pudéssemos montar um pequeno estúdio e fizéssemos jus às nossas capacidades de salvar vidas até nas paredes das nossas salas de estar.

 

  1. O que é a iniciativa ‘Feira pelos Animais’?

“Feira pelos Animais” é um grupo cívico que se está a formar em Santa Maria da Feira. À semelhança do “Porto pelos Animais” este grupo visa a concretização de medidas para melhorar a qualidade vida dos animais, com dono e errantes, deste concelho.

Está a começar com um pequeno grupo de protetores particulares e voluntários de associações locais, mas o objetivo é, em breve, ser aberto a toda a comunidade Feirense.

É muito importante que os munícipes façam parte deste movimento, até para que ganhe mais força. Muitas das vezes dizemos em apelos “um pouquinho a cada um dá muito” e é com esse pensamento que queremos que este movimento cresça.

Acreditamos que este grupo pode fazer diferença no nosso concelho e, quem sabe, influenciar outros grupos, em outras cidades, em outros concelhos a fazer o mesmo. Em breve iremos criar a página no Facebook e todas as pessoas poderão acompanhar o que temos feito e o que ambicionamos fazer.

 

  1. A ambição do projeto é que um dia deixe de ser necessário?

Sim. No dia em que o nosso projeto perca a necessidade de existir nós ficaremos imensamente felizes. É para isso que trabalhamos e esperamos um dia ver este sonho concretizado.

 

 

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Autor

Ricardo Grilo

Histórias capazes de entrar em contacto com as emoções de quem as lê justificam a minha paixão pelo jornalismo. Natural de Santa Maria da Feira, acredito no potencial de um concelho em ensaios para escrever a sua autobiografia. Aos 24 anos, e enquanto colaborar do ‘Ondas da Serra’, procuro a beleza em escrever sobre uma terra tão especial.

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