Bruno Monteiro: “O violino é a minha paixão” Bruno Monteiro: “O violino é a minha paixão”
segunda, 06 agosto 2018 01:17

Bruno Monteiro: “O violino é a minha paixão” Destaque

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O equilíbrio entre a emoção e o intelectual define Bruno Monteiro enquanto um dos melhores violinistas portugueses da atualidade. Nasceu no Porto, vive em Santa Maria de Lamas, e falou com o Ondas da Serra sobre as experiências emocionais que cria sempre que toca violino. “Tocar para as pessoas é comunicar emoções e raciocínio. É tudo.” A trabalhar no 12.º álbum, o artista promete mais um trabalho fora do comum, “apaixonado e obscuro”.

“O violino é a minha paixão.”

A conversa começa com Bruno a declarar o seu amor ao instrumento que toca há mais de 25 anos. Recebeu o violino em 1993 e desde então tem vindo a moldá-lo ao seu corpo, à sua maneira de ser e ao seu som. Ainda é um instrumento jovem. Precisa de pelo menos mais 70 anos para ser considerado velho.

Este “love affair”, como Bruno lhe chama, acontece com muitas horas de estudo e ensaio “É exatamente como o vinho do Porto. Quando mais velho, melhor.” O instrumentalista já lançou 11 álbuns. No entanto, ainda utilizou 30% daquilo que tem para dar. “Falta fazer mais”, reitera.

A viagem pelo percurso do instrumentalista português aconteceu no jardim junto à Igreja de Santa Maria de Lamas, no concelho de Santa Maria da Feira, Aveiro. A simplicidade do cidadão esbarra com a intensidade do músico.

 

“O violino é um instrumento muito pessoal e emocional. O som do instrumento depende do violinista, da forma como se toca”, explica.

“A diferença entre um performer e um grande artista é a capacidade para unir a parte emocional com a parte intelectual. Ter muita emoção e não ter estrutura intelectual, ou vice-versa, não interessa. Unir os dois mundos é fantástico. Isso é o mais importante na música”. Este equilíbrio entre a emoção e o racional é um dos elementos que a crítica aplaude e que atrai o público.

“No ano passado toquei em Madrid e os espanhóis foram extremamente recetivos. A sala estava cheia, no Palácio de Cibeles, e foram muito calorosos. Há públicos mais conversadores, como os austríacos. As pessoas gostam muito, mas sempre mais contidas”, explica Bruno.

“Um violino quando é muito bem tocado as pessoas reagem imediatamente. Enche o coração e a alma. Mas tudo depende de como a pessoa toca”.  O músico e o seu violino têm viajado pelo mundo desde o primeiro concerto, no Teatro S Luiz, em Lisboa. Tinha apenas 13 anos. Nunca mais pararam.

A Fanfare Magazine descreve o som de Bruno como "maravilhosamente poético e dramático" e a Gramophone fala de um som como "doce e belo".

A ambição de ser melhor, fazer mais e diferente, leva Bruno a navegar por diferentes estilos musicais: Toco um bocadinho de tudo, desde música do período barroco, a música do período romântico, clássico, século XX, e contemporânea.”

“O período romântico tardio, final do século XIX, princípio do século XX é o tipo de reportório que faço mais. Mas se tiver de tocar Bach também toco. Todas as minhas gravações vão neste sentido”.

“Também gosto muito de fazer coisas que a maior parte das pessoas não faz. Por exemplo, o disco ‘Szymanowski – Obra Completa para Violino e Piano’, e que recebeu honras na revista norte-americana Forbes, é um disco de um compositor polaco chamado Szymanowski que no meio da música toda a gente conhece, mas que é pouco conhecido do grande público. É um compositor fantástico, pouco tocado, e quando a minha editora na Holanda me propôs fazer este trabalho aceitei de imediato”.

Foi o primeiro e único CD [é duplo] no mundo com toda a obra do compositor. O trabalho exigiu cerca de 6 meses de preparação para gravar: “São obras muito difíceis, tanto a nível técnico como interpretativo”, salienta.

O trabalho, que conta com Bruno Monteiro no violino, foi eleito pela publicação norte-americana como o álbum do da semana no fim do mês de Março. Para o professor da Academia de Música de Santa Maria da Feira, esta referência na Forbes é uma “honras”, mas também um incentivo para continuar a trabalhar. Para além de estar a trabalhar no novo álbum, é professor e tem vários concertos agendados dentro e fora de Portugal. Grava sobretudo para fora do país, com uma das principais editoras do mundo, a Brilliant Classics.

“Os últimos 3 discos foram os que me deram mais prazer gravar”, confessa. São obras completas para violino e pino: ‘Fernando Lopes Graça’, ‘Szymanowski’ e ‘Schulhoff’.

“Faço recitais de violino e piano [duo com o pianista João Paulo Santos – diretor de estudos musicais e diretor musical de cena do Teatro Nacional de São Carlos, em Lisboa], faço solos com orquestras, trios, quartetos, entre outros. São estas as áreas em que me posiciono.”

Portugal, Espanha, Áustria, Holanda, Alemanha, França, Malásia, Coreia do Sul, Filipinas e Estados Unidos da América são apenas alguns dos países onde já tocou. Em Novembro, viaja apara a Roménia e Bulgária. Para 2019, Ucrânia, Espanha e Israel já estão na agenda.

Aos concertos e ás gravações adiciona ainda as aulas de violino. É professor há sete anos, sempre com o propósito de incentivar os alunos a fazerem o melhor com o talento que têm.

“Aquilo que gosto mesmo de fazer é tocar para as pessoas e gravar discos. Eu faço música porque gosto de comunicar com as pessoas. Gosto mais de tocar do que de falar. Gosto de dar aulas, mas para ser professor a sério tem de ser uma pessoa que se dedique de corpo e alma ao ensino e eu não tenho essa pretensão. Para mim o mais importante é tocar. Foi o que fiz toda a minha vida”, reconhece.

“Eu não estudo muito. O cérebro chega a uma certa altura e está cansado. Eu estudo é muito bem. No máximo, estudo quatro horas e meia por dia. Mas são horas extremamente focadas. Até porque a vida tem outras coisas. Eu não acredito que que uma pessoa possa ser um grande músico se se fechar numa sala 16 horas a tocar um instrumento. Tem de viver, experienciar a vida, viver emoções. Caso contrário, pode ser um excelente instrumentista, mas nunca um grande músico. Não tem nada para dizer”, adverte.

Ser violinista é tudo isto: “É uma pessoa dedicar-se inteiramente à causa da música. Sou mais músico do que violinista. Eu conseguia viver sem violino. Não conseguia viver sem música. É a minha vida.”

O novo disco será lançado no final deste ano ou no início de 2019. “Trabalha a obra de um compositor belga, do período romântico. É muito diferente dos últimos três discos, com um reportório muito apaixonado e obscuro”, descreve Bruno Monteiro.

O músico estuda, ensina, toca, cria e vive a partir de Santa Maria da Lamas. Não sente que a atual morada seja um obstáculo à sua carreira profissional: “Hoje o mundo é mais fácil. Não preciso de estar Nova Iorque ou Paris para as coisas acontecerem. Todas as semanas recebo telefonemas de vários cantos do mundo.”

“Gosto de viver em Lamas. Nasci no Porto, mas vivi sempre em Lamas. É um sítio muito sossegado. Um músico, ou um artista, precisa de paz interior para poder produzir. Quando estava em Nova Iorque tinha muita dificuldade em estudar porque era uma confusão. Não há nada melhor que ir à varanda à uma da manhã e ouvir silêncio. É fantástico. Prefiro morar num sítio sossegado, onde posso ter espaço para a minha mente, e fazer as coisas com calma, do que viver numa grande cidade.

Músico e violinista, Bruno é sobretudo “uma pessoa que gosta de viver, que está de bem com a vida, que tenta ser o mais justo e profissional possível. Uma pessoa apaixonada pela vida”.

Faço o meu percurso e os outros julgarão o que sou e o faço. Tento viver cada dia o melhor que posso. Só chega quando se morre ou quando existem limitações físicas. O sucesso é um processo contínuo. Não podemos parar. O trabalho continua.”

 

Breve biografia

Bruno começou a estudar música entre os seis e os setes anos de música. O piano foi o primeiro instrumento, por três motivos:

  1. A mãe tinha estuda piano.
  2. Já havia um piano em casa.
  3. Não havia necessidade de comprar outro instrumento.

Estudou piano até aos onze anos até chegar o dia que mudaria o seu rumo na escola onde estudava, a Academia de Música de Paços de Brandão, concelho de Santa Maria da Feira. Foi em 1988/89. Um dia ninguém sabia onde é que Bruno estava. Acabariam por encontra-lo a assistir ao ensaio da orquestra de câmara. Tinha acabado de se apaixonar pelo violino. Comprou um disco de um concerto para violino de Isaac Stern com a Orquestra de Filadélfia. Se inicialmente os pais não queriam que mudasse, acabariam por aceder.

Bruno Monteiro iniciou o estudo do violino em Portugal com Carlos Fontes, em cuja classe concluiu os seus estudos no nosso País com 20 valores e paralelamente foi orientado por Gerardo Ribeiro, com quem trabalhou particularmente em Chicago, nos EUA, como bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian e da Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento. Com a recomendação deste último violinista e como bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian e do Centro Nacional de Cultura, prosseguiu os seus estudos na Manhattan School of Music de Nova Iorque, instituição onde foi discípulo de Patinka Kopec (professora associada a Pinchas Zuckerman), Isidore Cohen (ex-violinista do Beaux Arts Trio e do Juilliard String Quartet) e de membros do American String Quartet, diplomando-se com as mais elevadas classificações em 2001. Patinka Kopec apresentou-o seguidamente ao célebre violinista israelita Shmuel Ashkenasi (ex-lider do Vermeer Quartet), com quem se aperfeiçoou posteriormente na Roosevelt University/Chicago College of the Performing Arts, como bolseiro do Ministério da Cultura - Gabinete das Relações Internacionais e da Fundação para a Ciência e Tecnologia - Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, obtendo em 2004 o grau de Mestre com a classificação.

Na Europa e nos EUA recebeu ainda ensinamentos em cursos internacionais de técnica violinística e interpretação musical, que frequentou sempre como executante, de artistas como Linda Cerone, Victor Danchenko, membros do Berlin Philharmonie Quartet, Menahem Pressler e Yehudi Menuhin.

Fonte biografia: website oficial

 

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Autor

Ricardo Grilo

Histórias capazes de entrar em contacto com as emoções de quem as lê justificam a minha paixão pelo jornalismo. Natural de Santa Maria da Feira, acredito no potencial de um concelho em ensaios para escrever a sua autobiografia. Aos 24 anos, e enquanto colaborar do ‘Ondas da Serra’, procuro a beleza em escrever sobre uma terra tão especial.

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