sexta, 04 novembro 2016 15:53

Incêndios em Arouca pouparam Vila Cova e Espiunca Destaque

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A equipa “Ondas da Serra” depois dos violentos incêndios deste Verão ainda não tinha efetuado mais nenhum trabalho nas serras de Arouca. A principal razão desta demora prendeu-se com o facto de previsivelmente irmos encontrar um cenário desolador e difícil de encarar, o que efetivamente veio acontecer. Segundo informações obtidas junto da Associação Geoparque de Arouca, de todos os percursos pedestres, só o PR1 - Caminhos de Montemuro e PR 10 - Rota dos Aromas, escaparam à destruição.

Queremos através das reportagens por nós efetuadas destes percursos, ir um pouco mais longe do que a informação obtida junto do site institucional da autarquia. Daremos sempre a nosso opinião de forma isenta e construtiva de modo a cumprir os nossos desígnios, contribuindo para chamar atenção para a preservação da natureza e ambiente, sem esquecer a componente humana dos povos que habitam esta região. Este percursos está sinalizado e registado na Federação Nacional de Campismo e Montanhismo, se tiver dúvidas e não conhecer a sinalética consulte o site deste organismo.

Incêndios em AroucaEste trabalho foi realizado no dia 01 de Novembro 2016, com tempo ameno, apesar de algumas nuvens no céu teimarem em esconder pontualmente o astro-rei. Ao chegar Arouca podemos constatar de imediato o quão perto as chamem estiveram da cidade, com as encostas que outrora eram verdes, pintadas de castanho e desprovidas de vegetação. Mas o pior estava para vir, na estrada em direção à Espiunca, os vales e as serras estavam medonhos, cinzentos, negros e queimados. O que sobressaiu à vista foram os eucaliptáis a tomarem o lugar da Floresta autóctone.

Segundo a Quercus este tipo de floresta é constituída por árvores originárias do nosso país, como é o caso dos carvalhos, medronheiros, castanheiros, loureiros, azinheiras, azereiros e dos sobreiros. Este facto é confirmado pelas nossas reportagens no terreno e no percurso abaixo descrito encontramos alguns dos seus exemplares. Reforça-se a grande perda que esta zona sofreu e que muito dificilmente poderá ser recuperada, cabe a todos o dever de exigir que as poucas que subsistem sejam preservadas para nós e para as gerações vindouras.

Encontramos nos vários acessos à serra, vários montes de madeira devidamente cortada, à espera de ser transportada e alguns camiões já carregados. Ficamos contentes em saber que pelo menos alguém vai ganhar com esta desflorestação e Amazônia ali tão perto.

Voltado ao percurso este possui um rota circular, com cerca de 12 km, inicia-se e termina em Vila Cova, sendo efetuado na zona da antiga freguesia da Espiunca. Este caminho está classificado com intensidade média-alta e pode ser efetuado durante todo o ano. Quem o quiser percorrer não se esqueça de utilizar calçado apropriado, colocar protetor solar apesar de já não estarmos no Verão, transportar pouco peso e se puder compre bastões de caminhada. O mesmo está razoavelmente assinalado nas duas direções. Por onde passar não destrua a fauna, não perturbe os animais e faça o mínimo ruído.

Ao chegar à paragem dos autocarros em Vila Cova, existem placas que indicam o início/fim do percurso. Para quem começa nestas andanças informa-se que normalmente nos percursos de rota circular o início começa a subir e o fim a descer, este não fugiu à regra mas por questões de luminosidade fotográfica optou-se por começar ao contrário.

Estas viagens na nossa terra têm que ser feitas olhando para ver e escutando para ouvir. Se for com pressa vai perder muito da sua riqueza, o melhor por vezes não está ao nível dos olhos, pare pontualmente e aprofunde a visão, vai ter agradável surpresa de ver outras paisagens que numa análise superficial estava a perder. Damos como exemplo as fechaduras das portas das casas em xisto que remetem com todo nestas paragens para o passado.

Durante este trajeto podemos encontrar um ambiente outonal, onde as diferentes tonalidades das cores se misturavam com a paisagem e adquiriram outra magia quando eram iluminadas por um sol ameno, propiciando uma recolha imagética muito rica. Pelo caminho encontramos castanheiros com os seus ouriços, oferecendo em alguns locais  generosamente castanhas ao visitante. Algumas oliveiras ainda tinham azeitonas, bem amadurecidas e preparadas para a cura, para quem a souber fazer.

Ainda subsistam algumas uvas nas ramadas e por terem sido esquecidas tinham uma doçura inconfundível. A dada altura do percurso encontramos alguns medronheiros e incomodamos involuntariamente a passarada que se alimentava dos seus frutos vermelhos. Também vimos algumas vespas asiáticas alimentarem-se nas flores, é um bicho corpulento que parece querer acabar com a concorrência. Só no futuro se saberá a extensão total das consequências da sua proliferação para a flora e produção de mel dos nosso apicultores, mas os dados atuais não auguram nada de bom.

Sr Fernando habitante mais velho de Vila CovaEncontramos muitas ervas e folhas aromáticas, alfazema, cidreira, loureiro, hipericão, nêveda e urtigas. Talvez por ter chovido recentemente nasceram cogumelos de todos os tamanhos e feitios e alguns com formas muito peculiares. Em Vila Cova trauteamos algumas palavras com o habitante mais velho do lugar, Srº Fernando de 83 anos, que nos autorizou gentilmente a tirar a sua fotografia. Por ser um dia festivo, feriado de “Todos os Santos” as aldeias tinham mais habitantes e vida que o habitual.

Por todo o lado encontramos flores, silvestres ou nos quintais das aldeias, que por serem serranas adquirem outro encanto. Para as apreciar não há necessidade de as cortar, basta ver, cheirar e se for o caso fotografar.

Na margem do Rio Paiva, o visitante pode parar um pouco no miradouro que foi construído e que permite uma visão ampla sobre o rio e suas margens, que apresenta em alguns pontos fortes correntes. Não deixamos de reparar que por baixo dessa estrutura existia algum lixo, os visitantes gostam tanto de ver as vistas que acabam por se esquecer do fundamental. Contudo como a culpa não dança sozinha, também não vimos nenhum caixote do lixo nas redondezas, vimos contudo mais lixo espalhado na estrada em frente.

Pegadas de raposa e crias junto rio Paiva - AroucaNo caminho para Espiunca podemos encontrar na margem do Rio Paiva uma pequena praia fluvial, que segundo informações que obtivemos juntos de moradores locais é conhecida pela praia do David e não vem assinalada nos mapas. Podemos verificar que junto à margem do rio algum animal com crias deixou ali as suas pegadas, talvez tivessem ido apagar a sede, não somos especialistas nesta área e gostaríamos que nos ajudassem a identificar as mesmas.

Na Espiunca podemos visitar um antigo moinho em pedra muito bem preservado, com teto em madeira, com os apetrechos necessários para moer e cozer o pão, mesas, mó, móvel para pisar o pão e forno. Um aviso informa o visitante que pode utilizar o local desde que telefone para o número indicado. Ainda bem que em alguns locais não é necessário ter uma vigilância apertada, a porta está aberta e confiasse no visitante para não estragar nada.

Ali perto falamos com um habitante local da Espiunca, Srº Joaquim na casa dos 60 anos, que nos explicou como em tempos o fogo atravessou a encosta e chegou à sua freguesia. Apesar de viverem poucas pessoas no lugar, não se sente isolado pois em 30 minutos andar de vagar com o carro chega Arouca. Indicou-nos um fontanário onde matamos a sede, embora já tivéssemos bebido água melhor.

Pontes em madeira sobre riachoEm determinados pontos no fundo dos vales, o visitante irá encontrar riachos que podem ser atravessados por pontes em madeira em bom estado de conservação. Perto da Espiunca um deles vai desaguar ao Rio Paiva. Neste locais a fauna e flora é mais rica e o fresco ajuda a recuperar algum calor do esforço.

Em algumas partes do trajeto o percurso é verdejante, mas não deixamos de ver as consequências de incêndios passados, que já estão a provocar a erosão dos solos. Também verificamos que alguém se esqueceu de recolher os sobrantes, podendo ser encontradas nessas encostas vários montes de lenha muito seca que só está à espera das condições ideais ou criminosas para arder.

Neste percurso podemos encontrar algum casario em xisto, a grande maioria desabitado, outros em ruínas, alguns destacando-se pela simbiose entre o antigo e o moderno. É isso que dá encanto e chama muita gente à serra, nacionais e estrangeiros. Não sabemos se a autarquia tem em curso algum programa para fazer um registo das mesmas e preservação de algumas.


Já se fazia noite quando chegamos a Vila Cova e no regresso ainda fomos a tempo de contemplar o pôr-de-sol, cereja em cima do bolo num dia para encher a alma.

Recolha fotográfica do percurso. 

Reportagem: Rosa Maria
Fotografia: Sílvio Dias     

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Autor

Ondas da Serra

Ondas da Serra® é um Orgão de Comunicação Social periódico, distribuído electronicamente, que visa através da inserção de notícias, promover a identidade regional, o turismo, e a divulgação/defesa do património natural, arquitectónico, pessoas, animais e tradições, dos concelhos da região norte do distrito de Aveiro, nomeadamente: Ovar, Santa Maria da Feira, Espinho, São João da Madeira, Oliveira de Azeméis, Vale de Cambra e Arouca e do forma mais geral dos restantes municípios do distrito.

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