domingo, 28 janeiro 2018 14:15

‘Fora do Baralho’: uma ode aos momentos mágicos

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‘Fora do Baralho’ percorre Portugal há cinco anos. Amanhã Santa Maria da Feira será o palco desta peça teatral de enredo incomum. Mário Daniel, o artesão das suas ilusões e a empregada que sonha ser sua assistente tornaram-se protagonistas do cineteatro António Lamoso e as famílias agradecem.

Cada truque produz efeitos inexplicáveis nos sentidos dos que assistem ao desenrolar da história. Uma hora e meia passa num ápice. Enfeitiçar a plateia exige trabalho, ensaio e criatividade.

“O enredo desenrola-se num cenário que representa um atelier dos anos 80, de um artesão da geração do meu pai que me está a ajudar a montar um espetáculo. Há uma terceira personagem, a Rosinha, empregada de limpeza do atelier e que tem o desejo secreto de ser minha assistente no espetáculo que estou a criar.”, explica Mário Daniel ao Ondas da Serra em vésperas de se lançar em mais espetáculo de ilusionismo, teatro e comédia.

“A minha personagem é a única que é omnisciente do público. Tanto estou fechado dentro da história como parto a quarta parede e estou com o público, como se já estivesse no espetáculo.” Não existem truques de cartas e todas as ações mágicas são justificadas “Não me agrada a forma gratuita como as ações mágicas são feitas.”, confessa.  

No fim, “os elementos surgem fruto de um momento de inspiração, de uma ideia, para resolver um conflito ou criar um conflito”. Esta é a fórmula que para Mário Daniel explica o sucesso de uma história imaginada para toda a família. Mário Daniel exemplifica como se constrói um guião em torno de um momento mágico:

“A certa altura coloco música calma no rádio para me inspirar e desenhar uma caixa para o espetáculo que estou a construir. Entra a Rosinha para limpar o pó e muda a música para uma coisa mexida. Como é que resolvo esse conflito? Estou sentado à secretária, concentrado, e fico com um conflito. Olho para o rádio, vejo que a Rosinha está distraída, começo a mexer a antena do rádio à distância e mudo de estação. Mas a Rosinha vai lá e volta a mudar. Fico com o mesmo problema e tenho de tomar uma atitude mais definitiva. Pego no meu casaco, cubro o rádio e faço-o desaparecer.” Ou seja, “não é o mágico que faz desaparecer para mostrar que faz desaparecer um objeto mas é o mágico que faz desaparecer o rádio porque precisa que isso aconteça para poder continuar a trabalhar”, arrebata.

A magia surge de forma muito natural, explicada pelo seu próprio contexto, sem gratuitidade ou leveza. Criam-se momentos mágicos com especial mestria num tom por vezes mordaz, mas sempre consciente da sua responsabilidade. A cenografia daquele que é provavelmente o maior espetáculo itinerante em Portugal atualmente é da autoria de Tiago Magalhães.

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As traves, o rádio, as roldanas, a secretária e aquela caixa preta suspensa conversam sobre a essência da magia num convite à curiosidade difícil de recusar. O ponto de interrogação branco numa caixa negra é um dos pontos altos de uma performance sem truques, mas habitada por ilusões e desenhos.

Idealizado para conhecer palcos internacionais, o guião já está traduzido para inglês e a aguardar novos voos. ‘Out of this world: the world most original magic show’ é o nome que irá batizar a produção inglesa.  

Os conceitos mais básicos da magia são desconstruídos ao longo de minutos mágicos.  “A magia não é espontânea. A magia estuda-se. Tem uma parte técnica muito complexa e infinita.” Ainda segundo Mário Daniel, é impossível “aprender as ilusões todas”. O mais importante é desenhar um bom efeito, pensar em como fazer o enredo que se magicou.  

“Este espetáculo enquanto todo, em que tocamos em emoções e valores, é mágico porque não tem apenas truques. Não basta fazer um truque para que as pessoas falem de magia neste sentido metafórico.” Por isso, é um convite para se experienciar a verdadeira magia: “O momento mágico é algo que não se explica e serve como metáfora para tudo o que não se explica. Para se chamar magia o truque tem de nos criar uma emoção. Tem de nos fazer arrepiar.”.

‘Fora do Baralho’ continuará a percorrer Portugal e o mundo enquanto espetáculo para a família. Fascina pelas emoções e pelo enredo. As pessoas esquecem-se da vontade permanente em decifrar as ilusões para usufruírem de uma história mágica. É o ministério da magia no seu estado mais puro em cima de um palco sem truques.

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Autor

Ricardo Grilo

Histórias capazes de entrar em contacto com as emoções de quem as lê justificam a minha paixão pelo jornalismo. Natural de Santa Maria da Feira, acredito no potencial de um concelho em ensaios para escrever a sua autobiografia. Aos 24 anos, e enquanto colaborar do ‘Ondas da Serra’, procuro a beleza em escrever sobre uma terra tão especial.

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