A Loja Centenária da Marçalina Loja da Marçalina | Rosa Pereira Oliveira (82 anos) e marido Manuel Pereira Santos (79 anos)
sexta, 23 agosto 2019 21:00

A Loja Centenária da Marçalina Destaque

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Ondas da Serra viajou até Cabomonte – São Miguel de Souto, onde subsiste há mais de um século uma antiga taberna, mercearia ou como o povo gosta de chamar “Loja de comes e bebes”, mais conhecida por “Loja da Marçalina”, uma das mais velhas das terras de Santa Maria e onde ainda se podem sentir os refinados odores dos petiscos dos nossos avós.

Horário de funcionamento de 1946A casa onde a loja ainda vive não tem vaidade, as rugas e tons cinzentos denotam a longevidade e mazelas de tempos trabalhosos. Por detrás do balcão fomos encontrar Rosa Oliveira e marido Manuel Santos, ambos com mais de setenta anos, casados há sessenta e com três filhos ali criados. Dizem com orgulho que estão neste negócio há mais de cinquenta e com algumas forças para servirem os clientes que ainda vão aparecendo, mas que já vão rareando.

Aqui nasceu, casou e viveu a mãe da proprietária, a filha contou-nos que a loja era do avô e que nos primórdios era apenas um barracão de madeira. O casal não se entendeu nos anos de existência do espaço, nem há quantos anos o geriam, ela acrescentava e ele subtraia. Quem sempre esteve à frente dos seus destinos foi a senhora, o marido agora na reforma veio dar-lhe uma ajuda.

Leia também: Os Amigos da Tasca Centenária e da música popular Portuguesa

A senhora lembra-se de na infância no largo defronte jogar à bugalhinha, tentando com uma bola de pirolito acertar num buraco na terra e ao arco.

Nos primeiros anos faziam de tudo, vendiam mercearia, fruta e preparavam refeições. Com os anos e as grandes superfícies, ficaram apenas com a venda de bebidas e petiscos como fígado e febras à terça, carne de porco cozida, como barriga salpicada às quintas, tripas de porco em vinha-d'alhos às sextas e o bacalhau frito ao sábado, que atraem muitos clientes da terra e redondezas.

Mais para noite depois do trabalho os clientes regressam, para comerem um petisco, beberem um copo de vinho e jogarem à sueca. Por vezes nestes jogos há algum mau perder, confidenciou-nos a dona, “Eles às vezes por um copito de vinho, pousam as cartas, discutem, eu até digo assim, os ******, o senhor me perdoe, por um copo de vinho, chateiam-se, levantam-se e acaba a sueca. Mas depois tornam a jogar, é uma brincadeira.”

Perguntamos se vendia fiado, “Você não me fale em fiar, porque tenho acolá num caixote três mil euros em calotes de há muitos anos.”

Entrou um cliente que pediu vinho com açúcar, servido dum garrafão. José Laranjeira, vive ali perto e já perdeu a conta aos muitos anos que ali vem, seguramente mais de quarenta. Vem ali por ser perto, pelos amigos e para beber um copo e comer um petisco, “Não há quem diga mal desta loja”. Aqui interveio a dona dizendo que eles são o motivo de ainda não ter fechado.

Manuel Pereira, com 72 anos de idade, natural de Mangualde, mas ali residente, cliente há mais de meio século, veio ali beber o seu portinho como habitualmente. O que o trás ali são os amigos e o jogo da sueca, “Aqui o ritmo parece que é sempre igual”.

Pelas paredes estão espalhados vários cartazes e símbolos benfiquistas, disse ela com orgulho, “Aqui somos todos benfiquistas”, o marido fez questão de tirar uma foto com a águia.

Esta loja é também frequentada por cantadores e músicos da cultura popular, que inspirou um grupo de amigos a criar o conjunto típico “Amigos da Tasca Centenária”. Foi o António Silva deste grupo que nos auxiliou a fazer este trabalho e brevemente iremos também contar a sua história.

Aqui fica mais um registo dos ecos do passado, neste presente em transformação onde tudo é efémero, fugaz e engolido pelo “progresso”.

Local: Loja do Marcelina, Rua da Restauração, n. 6 – Cabomonte – São Miguel de Souto
Telefone: 256 801 182.

Leia também: A mercearia centenária “Loja da Preciosa”

 

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Autor

Ondas da Serra

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