São apenas corpos em constante reinterpretação, numa mudança desconfortável, fornecedores de energia e de urgências. O espaço auditório do cineteatro António Lamoso não ouvirá uma única palavra dos bailarinos Dinis Machado, Jorge Gonçalves e Susana Otero. Os seus corpos, o seu toque e o movimento reduzem a matéria em energia sem nunca a conseguir libertar.
“Acredito que há algo no toque que pode mudar o mundo”, revela Anna Pehrsson ao Ondas da Serra. Fica o silêncio, um sorriso pelo que acabou de afirmar e reitera: “A forma como tocamos uns nos outros. É estranho que estejamos cada vez mais afastados dos nossos corpos quando na realidade precisamos das relações com os outros, com o mundo e com a matéria.”
A coreógrafa e bailarina viajou de Estocolmo, na Suécia, para materializar esta forma de reinterpretar o corpo humano através de três bailarinos que não conhecia, resultado de uma encomenda da companhia de dança contemporânea BCN pelo curador convidado de 2017. Nasceu uma exposição das manifestações e das transformações das várias ambiguidades do corpo numa reinvenção radical, interessante e problemática.
Simultaneamente abstrata e concreta, a peça ’A matéria move-se, mas não se consegue escapar ao seu peso’ olha para a renegociação do humano a partir da sua anatomia mas também das fantasias de Anne. A artista considera contraditório o afastamento das pessoas nas suas relações interpessoais e a necessidade inquestionável de estar em contacto com o outro. A instabilidade impõe-se e serve de inspiração.
Em cada movimento uma ecologia de cruzamentos é delineada neste jogo completo que é o corpo e as suas relações. “No limiar do equilíbrio, no ponto de contacto das fronteiras entre os corpos, êxtase e evasão, transe e exaustão, desenhamos uma maneira futura de estar com o mundo.”, explica o cineteatro António Lamoso na sinopse de apresentação do espetáculo.
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Anna sente “que estamos a ficar cada vez mais individualistas”. “No Norte da Europa temos a filosofia de que temos de ser autossuficientes, construímos carreiras com base de que somos autónomos e temos de trabalhar para concretizar os nossos objetivos”, prossegue. A emergência da Antropocena serve como pano de fundo para se pensar o equilíbrio dos corpos, situando-se entre algures entre o transe e o ritual.
A negociação é constante sobretudo no que diz respeito a sensações. As podem sentam-se e sentem alguma coisa. A peça procurara criar um espaço vibratório e que Anne espera que que uma das pessoas leve para casa. A ambição é “criar sentido de urgência no público, deixando espaço para a meditação”.
Trata-se da nossa capacidade para mudar, do antagonismo entre vida e morte, daquilo que é a vida e o seu apelo à mudança. A mudança que gera desconforto, que é difícil. “Se ainda que por um segundo alguém sinta algo que já não sentia há muito tempo será ótimo para mim e para os bailarinos”, revela a coreógrafa.
A oportunidade é já no próximo Sábado, pelas 22horas, no cineteatro António Lamoso. A renegociação do corpo fundada será dançada por Dinis Machado, Jorge Gonçalves e Susana Otero da companhia Ballet Contemporâneo do Norte, fundada em 1995, em Santa Maria da Feira.