sábado, 03 fevereiro 2018 15:40

O Toque

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Anna Pehrsson desenhou cada movimento de uma coreografia em que o corpo humano é reinterpretado pela lente abstrata da energia.  Tão concretamente físico, sem palavras, o projeto é fruto do convite da companhia Ballet Contemporâneo do Norte (BNC), de Santa Maria da Feira, e estará no palco do cineteatro Lamoso no próximo Sábado, 10 de Fevereiro.

São apenas corpos em constante reinterpretação, numa mudança desconfortável, fornecedores de energia e de urgências. O espaço auditório do cineteatro António Lamoso não ouvirá uma única palavra dos bailarinos Dinis Machado, Jorge Gonçalves e Susana Otero. Os seus corpos, o seu toque e o movimento reduzem a matéria em energia sem nunca a conseguir libertar.

“Acredito que há algo no toque que pode mudar o mundo”, revela Anna Pehrsson ao Ondas da Serra. Fica o silêncio, um sorriso pelo que acabou de afirmar e reitera: “A forma como tocamos uns nos outros. É estranho que estejamos cada vez mais afastados dos nossos corpos quando na realidade precisamos das relações com os outros, com o mundo e com a matéria.”

A coreógrafa e bailarina viajou de Estocolmo, na Suécia, para materializar esta forma de reinterpretar o corpo humano através de três bailarinos que não conhecia, resultado de uma encomenda da companhia de dança contemporânea BCN pelo curador convidado de 2017. Nasceu uma exposição das manifestações e das transformações das várias ambiguidades do corpo numa reinvenção radical, interessante e problemática.

Simultaneamente abstrata e concreta, a peça ’A matéria move-se, mas não se consegue escapar ao seu peso’ olha para a renegociação do humano a partir da sua anatomia mas também das fantasias de Anne. A artista considera contraditório o afastamento das pessoas nas suas relações interpessoais e a necessidade inquestionável de estar em contacto com o outro. A instabilidade impõe-se e serve de inspiração.

Em cada movimento uma ecologia de cruzamentos é delineada neste jogo completo que é o corpo e as suas relações. “No limiar do equilíbrio, no ponto de contacto das fronteiras entre os corpos, êxtase e evasão, transe e exaustão, desenhamos uma maneira futura de estar com o mundo.”, explica o cineteatro António Lamoso na sinopse de apresentação do espetáculo.

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Anna sente “que estamos a ficar cada vez mais individualistas”. “No Norte da Europa temos a filosofia de que temos de ser autossuficientes, construímos carreiras com base de que somos autónomos e temos de trabalhar para concretizar os nossos objetivos”, prossegue. A emergência da Antropocena serve como pano de fundo para se pensar o equilíbrio dos corpos, situando-se entre algures entre o transe e o ritual.

A negociação é constante sobretudo no que diz respeito a sensações. As podem sentam-se e sentem alguma coisa. A peça procurara criar um espaço vibratório e que Anne espera que que uma das pessoas leve para casa. A ambição é “criar sentido de urgência no público, deixando espaço para a meditação”.

Trata-se da nossa capacidade para mudar, do antagonismo entre vida e morte, daquilo que é a vida e o seu apelo à mudança. A mudança que gera desconforto, que é difícil. “Se ainda que por um segundo alguém sinta algo que já não sentia há muito tempo será ótimo para mim e para os bailarinos”, revela a coreógrafa.

A oportunidade é já no próximo Sábado, pelas 22horas, no cineteatro António Lamoso. A renegociação do corpo fundada será dançada por Dinis Machado, Jorge Gonçalves e Susana Otero da companhia Ballet Contemporâneo do Norte, fundada em 1995, em Santa Maria da Feira.

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Autor

Ricardo Grilo

Histórias capazes de entrar em contacto com as emoções de quem as lê justificam a minha paixão pelo jornalismo. Natural de Santa Maria da Feira, acredito no potencial de um concelho em ensaios para escrever a sua autobiografia. Aos 24 anos, e enquanto colaborar do ‘Ondas da Serra’, procuro a beleza em escrever sobre uma terra tão especial.

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