Manuel Faneco: “A minha relação com Ovar é inexplicável. Adoro isto” Manuel Faneco
sexta, 02 março 2018 20:57

Manuel Faneco: “A minha relação com Ovar é inexplicável. Adoro isto” Destaque

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A relação visceral com Ovar tem consciência da sua existência sempre que Manuel Faneco fala sobre o amor que tem pela cidade. É conhecido por Nené e há mais de 10 anos que defende a conservação da zona verde que envolve a foz do rio Cáster. Defende e luta por ela ao mesmo tempo que se esforça por tornar a comunidade consciente da urgência de agir.

Manuel FanecoAos 62 anos, Manuel Faneco, daqui em diante tratado por Nené, vigia o património natural que a laguna de Aveiro ostenta na sua extensão de Ovar. 

Nasceu no lugar de Ribeira de Ovar e lá se manteve com a família até aos oito anos de idade. Mudou-se para o Porto e durante 12 anos fugiu para o concelho piscatório sempre que tinha oportunidade. Quando se casou, mudou-se definitivamente para a cidade que ama incondicionalmente.

“A minha relação com Ovar é inexplicável. Adoro isto.”, confessa Nené, com o orgulho latente no olhar, sempre de máquina fotográfica ao pescoço, pronta a disparar a qualquer instante.

“O meu pai era de Ovar e a minha mãe era alfacinha. A minha avó paterna era de Pardilhó e a minha avó materna era de Alcochete.”. As palavras de Nené corroboram a sua relação orgânica com a Natureza: “Os meus pais incutiram-nos o respeito pelo ambiente e fui alimentando este amor e respeito ao longo do tempo”.

O Cais da Ribeira é considerado um ponto turístico de Ovar. Funcionou, até meados do século XX, como um importante eixo de comunicação entre as populações ribeirinhas. O desenvolvimento de diversas atividades económicas, desde a pesca, a produção de sal e a apanha do moliço, continua evidente nos armazéns abandonados, nas casas degradadas e nos caminhos de terra batida.

A passagem da Rainha D. Maria II, acompanhado do seu marido El-Rei D. Fernando em 1852, pelo Cais da Ribeira, em Ovar, confirma a importância deste cais no transporte de mercadorias, mas também para as deslocações da própria população através dos canais lagunares da Ria de Aveiro.

A riqueza deste recanto de Ovar estende-se à observação de aves e que é possível testemunhar ao longo dos quase três quilómetros de percurso desde o Cais da Ribeira à foz do rio Cáster. Um património natural que Nené vigia há mais de uma década, após a aposentação da Portugal Telecom: “Desde que estou na pré-reforma que cuido desta zona de Ovar. Trabalhei na PT, na área das telecomunicações. Fiz Ovar-Porto e Porto-Ovar todos os dias, durante anos”.

O dia-a-dia de Nené na área circundante do canal de Ovar significa muito trabalho e dedicação. A limpeza do espaço verde, a manutenção dos caixotes do lixo, a observação de aves e a proteção da biodiversidade faunística e florística são apenas algumas das tarefas que executa meticulosamente.

“Construí ninhos para as cegonhas com madeiras que estavam a apodrecer nos armazéns da autarquia de Ovar. Forneceram-me dois postes da PT que estavam sem uso e transformei-os em ninhos.”, revela.

A chegada à foz do rio Cáster é presenteada com um banco de madeira também construído por Nené e onde se pode observar a beleza ímpar deste habitat. Espécies como a Garça-branca-pequena, o Pica-pau-malhado e, em dias de sorte, lontras, são apenas alguns exemplos.  

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O vigia que adora isto sem condicionalismos tenta consciencializar a comunidade para a urgência de proteger o canal de Ovar através de partilha de fotografias nas suas redes sociais, reuniões com a autarquia de Ovar e conversas que mantém com todos os que visitam o rio Cáster e o Cais da Ribeira: “Como adoro isto, faço tudo o que posso para que as outras pessoas também se apaixonem por isto e tenham consciência do seu potencial. Temos de defender esta zona”, arrebata Nené.

Aos 62 anos, parece ser a única pessoa verdadeiramente preocupada com o futuro deste santuário verde a escassos minutos do centro de Ovar.  A postura militar deixa antever uma postura rígida no seu compromisso com a cidade, a biodiversidade e a saúde do rio Cáster.

Guarda milhares de fotografias no seu computador. É crítico da autarquia e de todos os organismos públicos que não fazem o que podem e devem. Age para depois apontar falhas. Indica caminhos e conhece o terreno como ninguém.

É um amante da Natureza e de Ovar. Conserta o que os outos negligenciam e, muitas vezes, vandalizam. Locais como a foz do rio Cáster e o Cais da Ribeira são oportunidades únicas para fazer caminhadas, andar de bicicleta e observar aves. Um lugar especial em Portugal e na Europa, cujas qualidades paisagísticas e ambientais podem estar em causa. A caça ilegal é outro desafio apontado por Nené.  

A laguna de Aveiro, de acordo com informação disponível no portal da Câmara Municipal de Ovar, “é uma laguna costeira de água salobra, detentora de um Património Natural que importa conhecer, para preservar. As teias tróficas que aqui se estabelecem conferiram-lhe o (…) estatuto de Reserva Ecológica Nacional (REN); Reserva Agrícola Nacional (RAN); ZPE (Zona de Proteção Especial para as Aves) ao abrigo da Diretiva Aves e vários Sítios de Importância Comunitária (SIC). Pertence ainda à Rede Natura 2000; considerada uma Important Bird Area (IBA) pela Birdlife Internacional e pela SPEA (Sociedade Portuguesa para o Estudo da Aves); inventariada como biótopo CORINE e ainda contém estatutos de proteção que estão na origem da Convenção de Berna e na Convenção de Bona.”.

A pergunta e amargura de Nené permanece sem resposta. Qual é o plano de ação previsto para que a proteção desta área verde seja eficiente, efetiva e oficial? O património natural e a sua preservação dependem de Nené. Tem sido assim nos últimos 10 anos.

 

Lida 553 vezes Modificado em sábado, 03 março 2018 17:54

Autor

Ricardo Grilo

Histórias capazes de entrar em contacto com as emoções de quem as lê justificam a minha paixão pelo jornalismo. Natural de Santa Maria da Feira, acredito no potencial de um concelho em ensaios para escrever a sua autobiografia. Aos 24 anos, e enquanto colaborar do ‘Ondas da Serra’, procuro a beleza em escrever sobre uma terra tão especial.

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