sexta, 17 fevereiro 2017 17:10

Manuel "Paciência"

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Manuel da Silva Oliveira Duarte (Manuel "Paciência") nasceu no lugar da Ponte Reada, Ovar, em 9 de junho de 1935. Filho de Manuel de Oliveira Duarte, continuou o negócio de seu pai na Garagem Paciência, passando-o ao seu filho Fernando, com quem ainda trabalha, no centro histórico de Ovar.

Quan­tos anos tinha quando começou a trabalhar? 

Tinha 12 anos. Quando fiz o exame da 4.ª classe, o meu pai, que era ser­ralheiro, perguntou-me para onde é que eu queria ir trabalhar, e eu dis­se que ia para onde ele quisesse... No princípio, fui trabalhar com ele para a serralharia do Sr. Matos, que ficava à beira do Passo do En­contro. Mais tarde, o nosso patrão abriu um negócio de bicicletas e o meu pai ficou a chefiar aquilo. Quando a casa fechou, abriu o seu próprio negócio.

Então, foi o seu pai que lhe ensinou esta arte. Ainda era vivo quando abriram esta Garagem?

O meu pai faleceu em 1976, no dia 6 de fevereiro, seis anos após termos aberto a Garagem Paciên­cia. Fazia bicicletas pelas mãos dele, os quadros. Mas antes de virmos para aqui, estivemos numa casa arrendada, ali junto ao Passo do Horto. O proprietário da casa quis aumentar a renda e houve uma desavença entre os dois. Foram para Tribunal e deram-nos um pra­zo para sairmos. Como o meu pai fazia parte da Música Nova, ficou a saber que a Banda queria ficar com este armazém para fazer a sua sede, mas, como lhe ofereceram lá em cima, perto da rotunda, aquele terreno, desistiram de comprar isto. Ficámos nós com esta casa. Per­tencia aos Frazões, e tinha sido um armazém de coalhar azeite. Neste sítio, onde estamos a conversar, existia uma fornalha. O meu pai era uma pessoa que tinha muitos conhecimentos, muitas amizades, quer fosse na Ordem Terceira, quer fosse nas Bandas por onde passou.

De onde é que vem o nome Paciência?

Vem de um tio do meu pai, que trabalhava também na ser­ralharia. Chamava-se Manuel de Oliveira Paciência. Como o meu pai trabalhava com ele, o nome Paciên­cia ficou até hoje.

Como é que está o negócio das bicicletas em tempo de crise?

Estamos a atravessar tempos difíceis, mas a bicicleta, como vê, está cada vez mais na moda. E ago­ra, com as ciclovias que estão a fa­zer por aí, as pessoas utilizam cada vez mais a bicicleta como meio de transporte. Por falar nisso, podiam fazer uma pista do Carregal à Tor­reira, para que as famílias ao fim de semana pudessem pedalar em segurança para os lados da Ria. Sou casado, tenho dois filhos, um rapaz e uma rapariga, mas, graças a Deus, nunca me faltou trabalho. Todos conhecem o lema desta casa: Hoje não se fia... Amanhã, sim, tenha paciência!

Nunca recebeu nenhum convi­te para trabalhar noutro lugar?

Recebi. A antiga equipa de ci­clismo da Ovarense veio convidar­-me para ser o mecânico, na altura em que corria o João Gomes e o Joaquim Andrade. Mas como ga­nhava mais dinheiro na garagem e a responsabilidade era muita, fiquei por aqui. Mas isto também não é fácil, porque temos de saber cativar os clientes e ter mãozinhas para trabalhar.

Lembra-se de alguma figura conhecida que tenha vindo remen­dar um furo aqui à sua garagem?

O cabo Santos e outros milita­res da GNR vinham aqui arranjar as suas bicicletas. Quando tinha um furito, aparecia por cá. Era uma pes­soa impecável. Tinha um suporte na bicicleta para colocar a espingarda, ao comprido. Tirava-a, e eu arranja­va-lhe a bicicleta. Voltava a colocar a espingarda no suporte, e lá ia ele cumprir a sua missão.

As bicicletas também serviam para transportar alguns produtos, não serviam?

Os padeiros tinham um suporte à frente, onde levavam o pão para os fregueses, e os lavradores levavam os canados do leite num suporte que havia atrás nas bicicletas. Os pesca­dores também iam de bicicleta a to­car o búzio, quando chegava a altura de chamar o gado e os pescadores para a faina no mar...

TEXTO E FOTOS: Fernando Pinto

Lida 82 vezes Modificado em quinta, 30 março 2017 03:38

Autor

Fernando Pinto

Fernando Manuel Oliveira Pinto nasceu no dia 28 de junho de 1970, em Ovar. Jornalista profissional, fotógrafo e realizador de curtas-metragens de vídeo. Escreve poesia e contos. A pintura é outra das suas paixões. Colaborador do "Ondas da Serra".

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