O CENÁRIO da Ria de Ovar, por Hélder Ventura Hélder Ventura - Presidente da Cenário - Cais do Puxadouro - Válega - Ovar
terça, 29 janeiro 2019 01:35

O CENÁRIO da Ria de Ovar, por Hélder Ventura

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O Ondas da Serra visitou o Cais do Puxadouro, na Ria de Aveiro, em Válega. Durante séculos, este foi o local de onde partiram produtos agrícolas, de pecuária, telha e caulino. O porto, com as embarcações de madeira que os transportavam, foi perdendo as suas funções originais e o local transformou-se em CENÁRIO. O Centro Náutico da Ria de Ovar surge com a missão de preservar a memória do Cais e de recuperar histórias que, de outra forma se perderiam.

Hélder Ventura - Presidente da Cenário - Cais do Puxadouro, Válega, OvarHélder Ventura é o presidente da associação. Filho de um antigo fragateiro, embarcado em Lisboa, o arquiteto de formação considera-se um “curioso do mundo”. Nasceu em Válega e a ligação ao mar, e à ria, vem do berço. Vivenciou a pesca no Furadouro e a náutica de recreio do Areinho. Trata os barcos e a vela por tu.

Sob o ponto de vista urbanístico e arquitetónico, navegou até aos aglomerados urbanos e às culturas que decorrem dessa evolução. Tem uma relação especial com o território, sobretudo na componente estética que envolve a cultura náutica: “Fui tomado pela estética dos barcos”, revela.

A sua geração foi marcada por Jacques Cousteau, oficial da marinha francesa, cineasta, oceanógrafo e inventor conhecido pelas viagens de pesquisa a bordo do Calypso. Foi com as viagens de Cousteau que se apaixonou pelo mundo submarino, pelo mergulho e pela oceanografia. Esteve alguns anos no Estado Unidos da América a lutar pelo sonho de ser oceanógrafo e trabalhou no Porto, uma cidade extraordinária pela sua relação com o rio.

O curso da vida levou-o, em 2004, em conjunto com um grupo de amigos, a criar a CENÁRIO. Este nascimento deveu-se a um sentido de oportunidade apurado. Em finais dos anos noventa, recuperou com um amigo um barco e, mais tarde, o edifício onde funciona a associação foi colocado à venda. A experiência de recuperar um barco, e que se repetiu com o “Vouga”, deram-lhe a motivação necessária para embarcar na aventura da CENÁRIO: “Cada barco tem uma história, uma função. A cultura náutica é uma janela que se abre sobre o mundo”, partilhou Hélder com o Ondas da Serra.

A associação reúne perto de meia centena de sócios e tem como principais objetivos a identificação, estudo, desenvolvimento e promoção do património náutico. A importância inquestionável de Ovar no desenvolvimento dos desportos náuticos em meados do século XX acelerou a criação da CENÁRIO. O município litoral foi precursor no distrito de Aveiro na fundação de uma escola de vela e de um clube náutico e que se foram afirmando no panorama nacional, principalmente na náutica de recreio.

A CENÁRIO realiza anualmente três eventos, nomeadamente o seu aniversário em maio/junho, que tem sempre um convidado especial, um passeio de barco, um lanche com os sócios e amigos e uma regata aberta apenas a barcos de madeira.

Pontualmente, promove workshops e outras iniciativas de carpintaria naval, vela, acessórios de madeira e levantamento de barcos. Fazem ainda, em parceria com Associação Amigos do Cáster, um passeio pela natureza.

Os sócios promovem grandes convívios nas instalações em épocas especiais, nomeadamente da lampreia e dos chocos, aproveitando a pesca residual destes peixes para promover encontros informais entre amigos.

Para ser sócio da associação basta partilha dos objetivos da CENÁRIO e enviar o interesse através de email, telefonar ou comparecer no local.

Uma das dificuldades que a associação enfrenta é a falta de espaço, provocada pela chegada sucessiva de barcos em mau estado para recuperação.

A ria de Aveiro, com cerca de mil anos, está em permanente evolução, estando a perder qualidades em termos de navegabilidade. De acordo com Hélder Ventura, “Nos últimos quinze/vinte anos ouve mudanças drásticas neste sistema, não tanto provocadas pela natureza, mas pela ação humana”.

O progresso afastou os vareiros da ria, assim como as outras culturas que se estabeleceram em seu redor, que no passado dependiam dela para a pesca, apanha do moliço para agricultura e transporte. Como Ovar fica situado no topo Norte, tinha uma ligação privilegiada com o interior do Douro e Régua.

Hélder Ventura frisou que quando se fala em empreendedorismo, da economia do mar e dos apoios para que se desenvolva esta área, só funcionara de facto se houver sensibilidade para a cultura em matérias de mar, ria e território. Caso contrário as pessoas não se sentem informadas e estimuladas. Não é a legislação que leva as pessoas para estas áreas, é a sua vivência, cultura e memória: “Nesta estratégia cultural, os museus são fundamentais para dotar os portugueses de mecanismos para o desenvolvimento”, conclui.

Os sonhos da associação são promover a redescoberta da ria pelos vareiros: “A melhor forma de preservar o património é dar-lhe uma função, sem o descaracterizar em demasia”.

Hélder é assertivo: “O nosso sonho é que houvesse um espaço onde se pudesse cumprir os nossos objetivos e fosse utilizado em termos pedagógicos, até para a ligação das novas gerações ao território, à ria e ao mar.

Morada: CENÁRIO - Cais do Puxadouro - Rua dos Mercantes, Válega

Contactos: Telemóvel: 965 635 233 | email: Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.

 

O restauro de um barco

 

Alguns momentos da CENÁRIO - fotos cedidas por esta associação

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Autor

Ondas da Serra

Ondas da Serra® é um Orgão de Comunicação Social periódico, distribuído electronicamente, que visa através da inserção de notícias, promover a identidade regional, o turismo, e a divulgação/defesa do património natural, arquitectónico, pessoas, animais e tradições, dos concelhos da região norte do distrito de Aveiro, nomeadamente: Ovar, Santa Maria da Feira, Espinho, São João da Madeira, Oliveira de Azeméis, Vale de Cambra e Arouca e do forma mais geral dos restantes municípios do distrito.

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