Intermarché de Ovar conta a história da cidade em azulejo português Intermarché de Ovar - João Pereira na zona do talho
domingo, 21 abril 2019 08:47

Intermarché de Ovar conta a história da cidade em azulejo português Destaque

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Um supermercado já não é apenas um espaço comercial que vende produtos de consumo corrente. Oferecer cultura local em azulejaria portuguesa enquanto vai às compras é reconhecer que a experiência de cliente do século XXI não termina nas caixas registadoras. Por isso é que o Intermarché de Ovar lhe conta a história da cidade num projeto assinado por Marcos Muge.

Marcos Rui Oliveira Muge, ou apenas Muge, é o criativo responsável por reinventar um supermercado a celebrar 26 anos de proximidade com a cidade e o público. É no seu atelier, construído em 1994, que os azulejos são pintados e cosidos, para depois ganharem vida nas paredes do Intermarché de Ovar.

Tudo começa com um trabalho em desenho, posteriormente transferido para o azulejo. À medida que o processo avança, os próprios desenhos vão sendo adaptados. Depois do trabalho de pintura sobre o vidrado, existem várias composições até se chegar ao produto final. Colocar o azulejo no forno para coser é uma das últimas etapas.

O nascimento da cidade vareira conta-se em cada azulejo. São centenas de peças quadradas que abrem a história de um concelho no distrito de Aveiro ao mundo. Começa em 1026 até à atribuição em 10 fevereiro 1514 do foral Manuelino ao concelho de Ovar, que é a área do anterior concelho de Cabanões.

Segundo Marcos Muge, “Cabanões era um concelho e Ovar um lugar. Com o tempo, os papéis invertem-se e Ovar passa a ser concelho enquanto Cabanões adquire o estatuto de lugar. Como o Intermarché fica na área geográfica do antigo concelho de Cabanões, faz sentido que se aborde esta parte da história e se partilhe o processo de mudança com as pessoas”.

A transformação de uma cidade faz-se também pelas pessoas e repercute-se na forma como é escrita. Neste sentido, os azulejos revelam não só a forma como a população evoluiu, sobretudo nos seus trajes e trabalhos, mas também as mutações da palavra Cabanões (ver vídeo).

O talho é o capítulo 1 de um romance inspirado no passado e com preocupações atuais. No início do século XII, a carne vinha dos lavradores, maioritariamente locais e de zonas próximas. Um homem e duas mulheres representam esta origem e os trajes típicos. Por sua vez, as palavras remetem para a evolução de Cabanões.

Os contornos são desenhados para que sejam vistos ao longe. O efeito colorido é para recortar e valorizar as peças, com os objetivos de criar vida e dar movimento ao espaço. O resultado final irá revelar uma peça única, em que nenhum pormenor é descurado. Os próprios pergaminhos irão ter uma leitura diferente ao longo do mural.

O rosto do lavrador é muito tosco, típico dos que trabalham no duro e não têm cuidados com a pele. Já as camponesas têm uma apresentação mais cuidada”, esclarece Muge.

Para avançar na narrativa é necessário percorrer os quatro espaços, todos no seu próprio ritmo, e cujos enredos serão revelados no seu tempo. As obras no espaço seguinte iniciam-se apenas quando o espaço anterior é inaugurado e assim sucessivamente. Trata-se de uma intervenção artística em crescimento, e que o Ondas da Serra irá acompanhar e partilhar com a comunidade.

A “necessidade de reinventar o edifício” acompanhou João Pereira durante vários anos. Em 2018, o mosqueteiro responsável pela insígnia na cidade de Ovar desde 2005 decide avançar com o projeto: “Agarramos na ideia do mentor do grupo ‘Os Mosqueteiros’, Jean Pierre Le-Roch, de dar ao local onde estamos o que é do local e idealizamos uma mudança que permitisse promover a história de Ovar e falar com as pessoas que todos os dias nos escolhem”, explica João Pereira.

Focado em apostar numa intervenção cultural, rapidamente percebeu que a pessoa certa para liderar o trabalho criativo seria Marcos Muge.

O Sr. João Pereira ligou-me e referiu que pretendia fazer um trabalho de azulejaria portuguesa, mas ainda era uma ideia pouco sólida. Sabia o que não queria: um modelo comum de decoração de supermercados. Tinha de ser uma intervenção diferente”, partilha Muge durante a entrevista ao Ondas da Serra.

No total, são quatro espaços que serão trabalhados pelo artista local, pelo menos nesta primeira fase do investimento. O talho é o ponto de partida de uma história que conta e reinterpreta o nascimento de Ovar através da azulejaria portuguesa.

João Pereira, nascido no Barreiro, mudou-se para Ovar em Dezembro de 2005 para liderar o Intermarché de Ovar, 12 anos após a sua inauguração. Segundo o empresário, “Muge teve e tem liberdade total para criar espaços que permitam aos mais novos terem uma perceção do que Ovar já foi e aos mais velhos reviverem momentos especiais. Queremos que as pessoas sintam curiosidade nas figuras e palavras pintadas nos azulejos. Esperamos que queiram saber o que é que estão a ver e nos perguntem”.

Ali, o casamento entre o clássico e o contemporâneo é pensado para resultar num estabelecimento comercial. Se daqui a 50 anos já não for supermercado, a intervenção pode ficar para memória futura e o espaço pode ser adaptado a qualquer que seja a sua nova função. “Ao trabalhar a identidade local, podemos criar espaços fascinantes e que oferecem cultura às pessoas enquanto fazem as suas compras”, refere Muge.

Atualmente, existem 15 lojas Intermarché no distrito de Aveiro e duas no concelho vareiro (a segunda localiza-se em Esmoriz), num universo de 249 pontos de venda em território nacional. Contudo, esta é especial uma vez que tem espaço para o consumo rápido e tempo para homenagear a herança cultural de Ovar.

A busca pela diferenciação, a ferocidade da concorrência, o desejo de homenagear a história da gente, a necessidade de devolver à terra o que é da terra e de proporcionar cultura às pessoas reinventaram o Intermarché de Ovar. Agora, é um hipermercado com espaço para ser cidade. Nas palavras de João Pereira, deixará de “ser um lugar comercial para ser um centro cultural”.

 

 

 

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Ondas da Serra

Ondas da Serra® é um Orgão de Comunicação Social periódico, distribuído electronicamente, que visa através da inserção de notícias, promover a identidade regional, o turismo, e a divulgação/defesa do património natural, arquitectónico, pessoas, animais e tradições, dos concelhos da região norte do distrito de Aveiro, nomeadamente: Ovar, Santa Maria da Feira, Espinho, São João da Madeira, Oliveira de Azeméis, Vale de Cambra e Arouca e do forma mais geral dos restantes municípios do distrito.

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