quinta, 06 abril 2017 05:05

Ovar Cidade Museu do Azulejo Destaque

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Ovar é uma pequena cidade pertencente ao distrito de Aveiro, estando implantada no meio dos concelhos de Santa Maria da Feira, Espinho, Oliveira de Azeméis, Murtosa e Estarreja. Uma das suas principais caraterísticas é ser banhada pelo mar, ria e possuir ainda uma grande mancha florestal. Apesar da crise e das deslocalizações de muitas empresas este concelho consegui manter algumas embora não tenham o peso de outrora. As suas grandes bandeiras em termos turísticos são o carnaval, o pão-de-ló e recentemente a sua apresentação como "Ovar cidade museu do azulejo". O desporto rei na cidade é o basquetebol, tendo a equipa vareira já ganho vários títulos nacionais.

Publicidade de bilhetes para o BrasilOvar possui sinais de ocupação remota desde a pré-história, em termos de documentação só existem notícias das suas gentes a partir do século XI. Sendo uma terra de lavradores, pescadores, comerciantes de sal e artesãos, a cidade foi crescendo e ganhando importância, tendo recebido foral por D. Manuel I, em 10 de Fevereiro de 1514. As difíceis dificuldades da vida levaram muitos pescadores vareiros a tentar a sorte pelo resto da costa Portuguesa e do outro lado do Atlântico, sendo este último facto apresentado importante para entender o surgimento do fenómeno do azulejo na cidade em conjunto com o carnaval.

 “A larga maioria dos azulejos de Ovar data dos séculos XIX e XX. De realçar as ruas da zona histórica da cidade de Ovar que apresentam um conjunto fora do comum de casas com revestimentos azulejares, o qual torna-as num autêntico museu vivo do azulejo. O revestimento das fachadas com azulejo semi-industrial começou, no século XIX, por ser uma moda "importada" por emigrantes "brasileiros" enriquecidos. Os emigrantes oitocentistas, retornados do Brasil, investiram as suas poupanças em habitações com características semelhantes às que existiam no outro lado do Atlântico.

A moda "pegou" porque nos arredores do Porto e em Aveiro surgiram, entretanto, unidades industriais capazes de vender azulejo em quantidade e por baixo preço. Mas "pegou", também, porque o azulejo permite manter as fachadas das casas com um aspecto limpo e luminoso ao mesmo tempo que protege as paredes das humidades e das variações da temperatura. Para preservar o património edificado de Ovar, nas suas várias vertentes e alertar para a importância - pela quantidade e variedade - da sua componente cerâmica, incidindo, sobretudo, no azulejo de fachada,  a C.M. Ovar criou o Atelier de Conservação e Restauro do Azulejo.”  Fonte: CM Ovar.Azulejo varanda em Ovar

Importa comentar o facto destes emigrantes Brasileiros regressados endinheirados das Américas investirem nos azulejos e trazerem também outras culturas que foram assimiladas pelos Ovarenses, sendo de destacar o carnaval, o basquetebol e o reforço do futebol. O Estádio Marques da Silva foi oferecido à cidade por um destes emigrantes, recebendo em troca o seu nome. Neste trabalho só nós vamos debruçar sobre o azulejo, contudo é de salientar que já no guia turístico de 1959 se fazia grande referência ao Carnaval.

O verdadeiro núcleo da azulejaria de Ovar encontra-se concentrado no centro da cidade nas Rua Drº José Falcão e Padre Ferrer, embora por toda a cidade e freguesias se encontre este traço característico do concelho, em monumentos religiosos, públicos e privados. Esta moda do azulejo de fachada foi trazida por emigrantes vareiros que retornam a Ovar e trouxeram na bagagem de Manaus - Brasil esta forma de construção, as suas casas eram popularmente conhecidas como "As casas do Brasileiro". Um dos problemas que as casas de Ovar enfrentavam naquela altura era a humidade, este material alem de resolver o problema, era atractivo, brilhante e bonito. 

Uma das pessoas que contribui para Ovar ser reconhecida como “Ovar Cidade Museu do Azulejo” foi Rafael Salinas Calado, falecido com 69 anos em 27 de Dezembro de 2006. Foi um dos maiores especialistas em cerâmica que Portugal já conheceu. Foi fundador e Director do Museu Nacional do Azulejo, Conservador do Museu Nacional de Arte Antiga, escreveu e colaborou em vários artigos e obras sobre cerâmica.

 

Rafael Salinas Calado"Ovar é um museu vivo do azulejo – frase dita e redita, quase “slogan” – que exige, no entanto, uma clara explicação, sobretudo para dar aos vareiros, conscientemente bairristas, uma dimensão mais exacta da importância nacional daquilo que têm sabido estimar e conservar e exemplarmente defender. (…) Portanto, as ruas de casinhas cobertas da cor e variedade dos motivos dos seus azulejos, expostos à privilegiada luz da Ria, fazem de Ovar um magnífico museu. Ele recria, mostra e ensina, com invulgar evidência, os verdadeiros recursos de originalidade e beleza conseguidos na coerente simplicidade de um gosto enraizadamente nacional. É uma lição de prazer estético o deixarmo-nos passear pelas praças e ruas, encharcando os olhos nas mais variadas descobertas, sempre renovadas. Fachadas de cerâmica, singelamente enriquecidas pela cor e pelo brilho a que a eloquente sabedoria popular conseguiu – à custa de um modesto material – fazer ganhar, através de enfeitiçantes reflexos uma escala monumental. Também por isso, Ovar é – toda ela – um monumento. (…)”       

 Rafael Salinas Calado, 1981

Foi a partir deste pequeno texto por ele assinado que se assistiu por parte da Câmara Municipal a revalorização deste património. Este especialista estava permanentemente a ser solicitado, de norte a sul de Portugal, sempre disponível para dar a sua colaboração sobre este tipo de arte em Portugal, pelo que qualquer biografia que lhe seja feita a título póstumo pecará sempre por omissão.

Este mediatismo vindo duma entidade externa levou o poder político a olhar com outros olhos para este património e pressionando-os agir. Os vareiros acordaram para a riqueza que tinham à sua frente e acrescentaram-no à sua identidade. A autarquia compreendeu o seu valor e depressa começou a transmitir a ideia que este fenómeno é único e especifico de Ovar, o que deixando de lado o "bairrismo salutar" não será bem assim. O importante é que levou à proteção deste património que de outro modo se iria perder.

Em 2001 foi realizada uma exposição sobre este tema tendo o próprio presidente da câmara realçado o facto de o azulejo servir para o reforço da identidade vareira no prefácio do livro o "Azulejo Como Expressão Urbana".

"O 'Azulejo como Expressão Urbana' foi o tema de uma exposição cujo argumento é o azulejo: o azulejo de Ovar, que embeleza e diferencia o nosso património edificado e que passou a ser muito utilizado, sobretudo, a partir do final do séc. XIX e princípio do séc. XX A maior parte dele não é um azulejo de luxo; pelo contrário, este azulejo foi popularizado como revestimento na arquitectura tradicional vareira, justamente por proprietários não endinheirados, cujo grande objectivo era a protecção das paredes das suas casas com um material duradouro, polícromo e de variadas formas geométricas. Igrejas, edifícios públicos, casas solarengas ou as muitas pequenas casas de telhados de duas águas revestidas com este azulejo, individualizam a cidade e distinguem-na num todo estético, simultaneamente belo, variado, acolhedor, admirado pelo visitante e estudado por interessados e técnicos da especialidade. É minha convicção que o azulejo em Ovar ajudou à humanização da cidade e ao reforço da identidade vareira."

Ovar, Abril 2001
O presidente da Câmara
Armando Franca. Dr.

Este fenómeno é recente conforme demostram as pesquisas efetuadas em antigos guias turísticos desta cidade. No livro “Ovar – turística comercial e industrial, 1959”, os seus autores fazem uma introdução onde valorizam o valor das gentes locais, o Presidente da edilidade vareira escreveu o prefácio, enumerando todas as obras com importância para a cidade, construídas e planeadas para o futuro, valorizando o seu património natural e construído, em nenhum local deste documento aparece qualquer referência ao azulejo.

 

Outros das revistas mais recentes que também nada refere é “Vida Portuguesa” de Março 1984. Contudo na década de 90 do século passado começam a surgiu as primeiras referências, onde o azulejo já é um cartaz da cidade. Na exposição realizada pela Câmara Municipal de Ovar em 2001, o tema foi “ Azulejo como expressão urbana”.

Logotipo Câmara Municipal de Ovar antigo

Logotipo Câmara Municipal de Ovar atual

Um exemplo em como a edilidade assumiu plenamente esta identidade foi o facto de em 2009 a identidade corporativa da Câmara Municipal Ovar ter mudado. Este Município deixou de integrar o símbolo do mar para adoptar um com influência nos azulejos da cidade.

De forma a proteger este património foi criado em 2000 o Atelier de Conservação e Restauro de Azulejo, pela divisão de cultura da Câmara Municipal desta cidade, tendo como objetivo primordial a preservação do património edificado de Ovar nas suas várias vertentes e alertar para a importância da sua componente cerâmica, incidindo sobretudo no azulejo de fachada datado entre os finais do século XIX e princípios do século XX.

O Atelier disponibiliza um conjunto de serviços na área conservação preventiva e curativa destes elementos: Apoio aos munícipes na área da, recuperação fachadas, limpezas, consolidação de estruturas e construção de réplicas. Fazem junto dos estabelecimentos de ensino locais ações de divulgação e parcerias, com o objectivo de promover este património, educando os mais novos para a sua salvaguarda futura.

Importa realçar que antes da existência deste local os munícipes não tinham como recuperar e restaurar as suas casas de forma económica e assistiu-se durante décadas à sua destruição relacionada com obras de conservação, demolições ou actos de vandalismo. Mas faltava sobretudo o sentimento que levasse as pessoas a quererem preservar este património.

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Autor

Ondas da Serra

Ondas da Serra® é um Orgão de Comunicação Social periódico, distribuído electronicamente, que visa através da inserção de notícias, promover a identidade regional, o turismo, e a divulgação/defesa do património natural, arquitectónico, pessoas, animais e tradições, dos concelhos da região norte do distrito de Aveiro, nomeadamente: Ovar, Santa Maria da Feira, Espinho, São João da Madeira, Oliveira de Azeméis, Vale de Cambra e Arouca e do forma mais geral dos restantes municípios do distrito.

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