Museu de Ovar | Meio século ao serviço da cultura Esposição temporária - Profissões
sábado, 22 setembro 2018 20:16

Museu de Ovar | Meio século ao serviço da cultura Destaque

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Localizado no meio do coração da cidade vareira, perto da Câmara Municipal, o Museu de Ovar, com meio século de existência, apesar da sua enorme riqueza, vai passando despercebido, assim como a estreita rua onde nasceu. O seu rico espólio é constituído por azulejos, pinturas, esculturas, trajes tradicionais, bonecas e apicultura. O Ondas da Serra esteve à conversa com o seu diretor e duas funcionárias. Falaram-nos de um espaço que merece ser redescoberto pelos vareiros e explorado por forasteiros.

Profissões | Traje do MinhoO seu diretor, o professor Manuel Cleto, é natural de Espinho e residente no concelho de Ovar há 33 anos. A sua área profissional de educação visual e tecnológica levou-o a fazer um trabalho sobre azulejos para a Escola António Dias Simões, onde conheceu este museu. O que começou por ser uma sessão fotográfica culminou com um convite para a direção. Foi há 15 anos. Este diretor destaca o prazer que tem pela atividade e assim como a ajuda das duas funcionárias. Uma equipa pequena, mas imbatível.  

O museu começou por ser uma casa de habitação, construída em 1872 por a família abastada de Afonso Martins, comerciante de vinhos e azeite. Este homem gostava de viajar e foi numa viagem Inglaterra que teve a ideia de fazer um torreão. Foi em 1931. A obra sobressai no espaço envolvente, tendo servido para guardar os seus produtos. A chaminé expelia os gases.  

O Museu de Ovar nasceu, por vontade de alguns vareiros em janeiro de 1961, fruto do resultado de duas exposições feitas em janeiro e novembro de 1975. É uma instituição de utilidade pública desde 1975 e sócio fundador da Associação da Rota Europeia das Abelhas, com sede em França. Na sua origem esteve o Grupo 66 do Corpo Nacional de Escutas de Ovar.

No começo da década sessenta do século passado esta casa estava alugada, tinha várias dependências e há medida que foram vagando foram sendo trazidas as suas peças para este local, até que o prédio foi ocupado totalmente. A sua abertura oficial, embora parcial foi em 08 de janeiro de 1961. Na passagem de 1980 para 1981, foi feita uma campanha para aquisição desta casa.

Este é um museu eclético onde o visitante pode encontrar mais de mil pinturas, compostas de óleos, aguarelas, desenhos e guaches, esculturas, artes gráficas, serigrafia, gravuras e cerâmica de Querubim Lapa, que foi considerado o maior ceramista do século XX, tendo o museu dezassete placas de cerâmica, sendo um dos museus com maior espolio deste artista e Jorge Barradas.

O museu possui mais de cem trajes portugueses, uma coleção de sessenta trajes estrangeiros e mais de mil bonecas com trajes tradicionais de todo o mundo. Uma sala dedicada apicultura e alguns quartos onde é recriada a vida de antigamente.

O museu tem sempre algumas exposições temporárias, nesta altura estão expostos alguns trajes do Minho e de profissões, até 29 de setembro. No rés-do-chão existe uma sala para realização de apresentações e exposições e onde estão expostas atualmente pinturas do artista Emerenciano Rodrigues.

O museu tem falta de espaço físico para expor condignamente todas estas obras, de um elevador para as pessoas com mobilidade reduzida, que é colmatado com ajuda das funcionárias.

O diretor gostaria de dispor doutro espaço físico que não este em tabique, mas realça que tem de trabalhar com o que tem. Não dispõem por motivos económicos dum bom sistema de prevenção contra incêndios, apenas os extintores e alguns cuidados com a eletricidade. Espera melhorar a entrada para ter outra dignidade, fazer uma caixa forte para em caso de incêndio, proteger as obras mais valiosas.

Em 2017 este museu foi visitado por 6251 pessoas, durante o verão aumenta afluência de turistas estrangeiros. A maioria das visitas são pessoas que vem ver as exposições temporárias. Nos anos 90 as escolas vinham mais a este local, mas com o passar dos anos este número foi decrescendo.

Durante esta cordial conversa, sempre que era possível, a funcionária Maria Leonor Silva ajudava com o seu relato mais pormenorizado. A colega, Maria de Lurdes, estava de férias.  A cicerone de serviço é natural de Luanda e trabalha no museu há 25 cinco anos. Ainda trabalhou três com o fundador, numa fase onde já estava mais debilitado, tendo aquele lhe transmitido todo o seu conhecimento.

As funcionárias foram modificando, organizando e fazendo os inventários do museu. Trabalho que continua devido ao imenso espólio, com milhares de peças ainda por registar. No passado, o museu era “um guarda tudo”, como disse um dia José Saramago.          

As duas funcionárias fazem de tudo um pouco: são guias em Português e Inglês, garantam o serviço de escritório, ajudam nas exposições, compras e limpezas.  “O meu pai costumava dizer que eu vivia mais no museu do que vivia em casa”, revela Maria Silva.

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 Salas do Museu

Exposições temporárias. Trajes do Minho. Nesta sala estão expostos trajes do Minho, principalmente de festa. Está exposto o traje da noiva da Meadela, que veste toda de negro, apenas o lenço e ramo são brancos. O antigo e famoso lenço dos namorados. A lavradeira de Vila Praia de Ancora, ricamente vestida. De Castro Laboreiro, zona fria onde as pessoas se vestiam de burel. De Famalicão e lavradeiras do Minho, com o seu famoso ouro, a riqueza era medida pela quantidade que ostentavam. O traje de dó, um pouco mais escuro, quando o marido ou pai emigravam.

Profissões: Nesta sala estão expostos trajes de lavradores, com o seu famoso gabão, para pessoas com algumas posses e que era usado durante as desfolhadas. Lavradeiras, fiadoras de linho, ferreiro, pescadores com canguelhas de vender peixe pela porta, a varina com a sua canastra e o pescador de terra que remendava as redes, o amolador e a galinheira, que vendia galinhas e coelhos, que eram enviados até para Lisboa e Espanha com o advento do caminho de ferro.

Cerâmica: Nesta sala estão expostos peças da Fábrica do Carvalhinho, situada na Calçada da Corticeira – Porto. Esta fábrica começou a laborar no século XIX, em 1982 encerrou definidamente, um dos últimos donos, Serafim Lopes Andrade, era de Ovar. Em 2010 o mesmo doou todas as peças de cerâmica em exibição ao museu, que se caracterizam por serem todas pintadas à mão. Algumas ainda foram desenhadas por Armando Andrade, que foi um ceramista e pintor vareiro. A fábrica das Devesas, forneceu muitos dos azulejos de Ovar. Entre os séculos XIX e XX, existiu em Ovar uma fábrica de conservas, na zona do Garrett, antigo Largo São Sebastião, denominada “A Varina”. A fábrica das Devesas, no século XIX, construiu uma estátua da “Varina”, que se tornou o ex-libris da mesma. As três fábricas que forneciam azulejos Ovar eram as de Carvalhinho, Devesas e Massarelos.

Bonecas: O museu possui uma coleção de cerca de mil bonecas com trajes tradicionais de diversos países, como não têm espaço vão rodando uma pequena amostra por continentes. Nesta altura têm alguns países da Europa, como a Roménia, Bulgária, Polonia, Lituânia, Grécia e Itália. A sala é completada com trajes em tamanho real. Nesta altura têm exposto um casal com o traje da Lituânia e também algum do artesanato destes países.

Junto desta sala tem um deposito de mais de mil obras, compostas por pinturas e fotografias que não são expostas por falta de espaço.

Apicultura: Sala dedicada à apicultura e estudantes, este espolio foi oferecido por João Peixinho, que era um apicultor ferrenho. A sala tem colmeias de Portugal, Gerês e Açores, e estrangeiras, França e Polonia.  Não podiam deixar de ter os famosos cortiços. As cangalhas para o transporte dos favos em burros ou cavalos, centrifugadoras do mel, peças em cera, fumigadores e outros utensílios relacionados com esta arte. O Sr. João Peixinho como conhecia muitos artistas pedia-lhes para eles fazerem trabalhos relacionados com a temática e por isso um fez um painel em cerâmica, representado os egípcios a retirar o mel.  

Esculturas: A sala das esculturas pode ser visitada se o público pedir porque não tem as condições ideais. Esta sala tem peças de Alberto Carneiro, Raul Xavier, Henrique Moreira, António Duarte, Leopoldo de Almeida, Luís Abreu, Sousa Caldas, João Fragoso, Lagoa Henriques, Luís de Matos, Armando Mesquita, José Rodrigues e José da Fonseca. A maior parte das esculturas expostas serviram de molde para várias obras expostas como no Tribunal de Évora, Camara Municipal do Porto e Assembleia da República. 

Azulejos: O museu tem expostos azulejos decorativos e de fachadas, têm muitos destes últimos guardados que davam para fazer outro museu. Têm trabalhos de Alexandra Formigal e Beatriz Campos, pintora e ceramista de Ovar, os famosos azulejos da fábrica das Devesas Carvalhinho e Massarelos.  

 

Quartos

Sala: A sala com o mobiliário do inicio do século XX, onde haviam três peças que não podiam faltar, o Oratório, a comoda e a máquina de costura. As posses das pessoas ditavam a riqueza do Oratório, o que está exposto é do século XX. Foi uma família do Porto, descendente de Ovar que o ofereceu. O diretor do museu fez referência ao facto do interior desta peça ter vindo pintado de azul, muito suja e com vidro partidos, tendo sido restaurado pelas funcionárias com muita paciência e dedicação. Os antigos proprietários quando a viram, não o reconheceram.

Cozinha: Na cozinha pode ser vista uma lareira com as suas panelas de três pernas, os chouriços, porque na altura todas as pessoas tinham o seu porco para matar. Os pratos da altura e a cantareira, com o cântaro para manter a água fresca.

José Saramago: José Saramago visitou este museu há muitos anos e no seu livro, “Viagem a Portugal”, ele fala do traje “Mulher do Capotão ou Chapeirão”, de cores castanho ou preto se eram casadas, vermelho se eram solteiras. O chapéu aberto tem um metro de diâmetro, para não se queimarem com sol e terem uma tez clarinha e se diferenciarem da classe trabalhadora.

Escritório: É composto por mobília antiga, com madeira brasileira, ricamente trabalhada, uma pintura que foi oferecida recentemente com referencia ao carnaval da cidade, medalhas ganhas pelo Doutor Fragoso, com as suas coleções de selos. Tem uma peça de Teixeira Lopes, do Porto, que terá tido  alguém feminino em Ovar e por isso fez uma escultura dessa vareira. Também é feita referencia ao marmoto e salineira. Numa dependência anexa existe uma pequena biblioteca, com livros e manuscritos do sec. XVII, XVIII e XIX, livros antigos, documentação sobre Júlio Diniz e o Visconde de Ovar. Há livros e documentos que não estão acessíveis ao público em geral, com exceção para serem consultados para trabalhos académicos.

Quarto: Cama com colhão em palha, comoda com penico e escarradeira, o famoso lenço bordado com cabelo, quando ouve a emigração dos portugueses para o Brasil, quando os casais já estavam noivos, ela arrancava cabelo e bordava um lenço de bolso para ele levar, com o nome Maria, comum a todas as mulheres de então. Existem muitos poucos lenços deste tipo em Portugal.

Mascote: O gato Chico, vive no museu há 10 anos. Uma senhora encontrou uma ninhada de uma gata vadia e doou um deles ao museu.

Localização: Rua Heliodoro Salgado, n. 11 | 3880-232 Ovar
Horário: Terça a sábado | 09h30 -12h30 | 14h30 – 17h30
Encerramento: Segundas, domingos e feriados
Entradas: 2 euros por pessoa, grupos grandes de seniores 1 euro.
Email: Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar., Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.
Telefone: 256 572822 | 925 984 620
Facebook: https://www.facebook.com/pg/museudeovar/
Nome do Presidente da Direção: Manuel Henrique Pereira Cleto
Morada (Presidente): Largo Almeida Garrett, 32 A Torre 3, 5 D – 3880-127 Ovar
Telefone (Presidente): 927 550 102
Endereço de correio eletrónico - (Presidente): Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.
Contato alternativo (Nome/Cargo/Telefone): Mário Silva Marques – Vogal - 915 183 159
 

 

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Ondas da Serra

Ondas da Serra® é um Orgão de Comunicação Social periódico, distribuído electronicamente, que visa através da inserção de notícias, promover a identidade regional, o turismo, e a divulgação/defesa do património natural, arquitectónico, pessoas, animais e tradições, dos concelhos da região norte do distrito de Aveiro, nomeadamente: Ovar, Santa Maria da Feira, Espinho, São João da Madeira, Oliveira de Azeméis, Vale de Cambra e Arouca e do forma mais geral dos restantes municípios do distrito.

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