Casa-Museu Custódio Prato preservada pelo Rancho os Camponeses da Beira Ria Cozinha da Casa-Museu Custódio Prato - Bunheiro - Murtosa Ondas da Serra

Casa-Museu Custódio Prato preservada pelo Rancho os Camponeses da Beira Ria Destaque

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Bunheiro é uma das quatro freguesias da Murtosa, distrito de Aveiro. O património cultural único e a beleza das tradições serviram de impulsionador para a criação do Rancho Folclórico ‘Os Camponeses da Beira Ria’, há precisamente 39 anos. Regressamos ao passado numa conversa com Daniel Henriques de Bastos, um dos fundadores do grupo de danças e cantares, natural e residente nesta terra.

História do Rancho Folclórico ‘Os Camponeses da Beira Ria’

Em pleno coração da Ria de Aveiro, um grupo de jovens ligado à Igreja criava há quase quatro décadas, em 1979, um dos principais símbolos da freguesia de Bunheiro. O Rancho Folclórico ‘Os Camponeses da Beira Ria’ surgiu “para cantar umas modas e executar umas danças para colaborar numa festa de angariação de fundos para os novos emissoras da Rádio Renascença”, explica Daniel de Bastos.

O atual vereador da Câmara Municipal da Murtosa fazia parte desse grupo de jovens. Terminada a angariação de fundos, “decidimos continuar com o projeto e surgiu a ideia de criar o Rancho”, arremata.

O edifício da Junta de Freguesia de Bunheiro acolhe o grupo recreativo. No entanto a herança patrimonial da comunidade vive no seu próprio espaço. Os momentos bons, os menos bons, e cada minuto de convívio, extravasam as paredes de uma casa museu centenária, Custódio Prato. O engenheiro civil de 62 anos explica: “Enquanto casa antiga, cuja estrutura de base é o barro seco em blocos, este tipo de construção é centenária e precisa de uma conservação constante”.

O espólio estende-se por centenas de peças e o espaço é exíguo para as expor convenientemente. “A nossa terra tinha sobretudo atividade agrícola e de pesca. Mas deste último setor não temos praticamente nada. A parte da Ria está mal retratada e se queremos que seja representativa temos de dar o salto”, revela Daniel enquanto explica os projetos para o futuro e a forma como o grupo cresceu ao longo de 39 anos.

A Casa-Museu Custódio Prato conserva as tradições da vida antiga da lavoura

A casa-museu Custódio Prato foi inaugurada em 1996. Todavia, os trabalhos prolongaram-se e em 2000 foi feita uma segunda inauguração: “Os currais de gado e arrumações agrícolas foram recuperados. Trouxemos usos e costumes, as oficinas de artesãos, com uma taberna que não é vista em mais lado nenhum”. O investimento é contínuo, focado em melhorar os quadros que retratam o passado, sem palavras, e uma gigante admiração pelo que já foi.

Custódio Prato pode ser considerado o patrono do Rancho Folclórico. Segundo o secretário da direção, e responsável pela manutenção da casa-museu, Custódio “era um agricultor com posses e que tinha alguns conhecimentos em termos de economia e gestão de propriedades. Tinha centenas de pequenas parcelas de terrenos. Enviuvou e no final da sua vida, sem familiares diretos, resolveu dar uma parte dos seus bens a pessoas que estiveram próximas e grande parte do património doou à Igreja”. O único pedido foi que se erguesse um museu agrícola na freguesia.

O desejo do Sr. Custódio Prato concretizou-se com o Rancho Folclórico e a conversão da casa do antigo morador da terra numa casa-museu: “Queríamos ter um espaço onde pudéssemos expor coisas que já tínhamos recolhido do património cultural desta terra e depois fazer uma espécie de museu em homenagem a Custódio Prato. Falamos com a Igreja e acedeu. Ficamos com a obrigação de fazer obras e cuidar do espaço”, conclui.

Leia também: 39 Aniversário do Rancho "Os Camponeses da Beira-Ria" - Bunheiro

Os antigos ofícios estão preservados nesta casa museu

Além da casa de habitação, onde as pessoas ficam com clara noção de quais eram as condições de habitação de uma casa agrícola, e dos antigos ofícios, “No setor Sul, temos contacto com as atividades económicas que existiam na nossa terra e que desapareceram: sapateiro, alfaiate, carpinteiro, ferreiro, entre outras”. No final da visita, adquire-se “uma perspetiva de como os nossos antepassados viviam na terra.

Aberto de Terça-feira a Domingo, entre as 14 horas e as 18 horas, o museu está também aberto à comunidade e ostenta orgulhoso a simplicidade de tudo o que as gentes de Bunheiro oferecem para homenagear uma terra de tradições. Para visitas excecionais, é possível fazer marcação prévia.

Os cerca de 40 membros do Rancho organizam vários eventos ao longo do ano. O aniversário do rancho e o arraial popular, entre finais de junho e início de julho, são os mais fortes.

Para o futuro, revela a ambição de ampliar o espaço e divulgar o projeto. A presença online é uma das principais apostas, nomeadamente a visita virtual ao museu.

A relação de Bunheiro com a Terra e a Água é recuperada de forma imaculada em cada sala que se visita, nas peças expostas, nos diálogos que mantêm há vários anos. A agricultura e, num futuro próximo, a pesca, têm o espaço que merecem para que a sua memória enquanto importantes atividades económicas não seja esquecida.

 

Os espaços da Casa-Museu Custódio Prato

  
 

Receção

O museu está dividido em três área, onde são exibidos os apetrechos usados na agricultura, a casa onde se vivia e a zona dos ofícios.

Junto à entrada fica localizada a receção do rancho, onde têm expostas algumas coleções de louça antiga, rádios, gravadores, despertadores e até uma grafonola. Possuem também uma cascata São Joanina com mais de um século, feita por um senhor da terra e oferecida pelos seus descendentes.

 

 

Adega

O Rancho procurou reconstruir o espaço da adega, com todos os apetrechos relacionados com a produção de vinho, lagar, pipos, tuneis, prensas, garrafas e garrafões que se usavam para engarrafar o vinho e máquinas de sulfatar.

 

 

Coberto interior

No coberto interior são exibidos vários carros e ferramentas agrícolas, charruas, grades, alfaias, semeadores e cangas. Além dos cofinhos em metal para colocar nos focinhos das vacas, o grupo tem outros em corda que não estão exibidos. Noutro coberto ao lado são exibidos carros, alguns com taipais para transporte de algum tipo de materiais, como areias e outros para construção, milho ou feijão. Um deles tem uma aplicação para transportarem varas de madeira e elas poderem passar por cima dos animais. Exibem também o mangual, também conhecido por moal, usados para bater os cereais como o milho ou feijão, de forma a soltar os grãos.

 

 

Engenho

O engenho era utilizado para tirar água dum grande poço, puxado por uma vaca ou cavalo que andavam à roda e faziam mover o engenho. A água era utilizada essencialmente para a rega do milho e feijão.

 

 

Coberto exterior

No exterior debaixo dum coberto guardam muitos artefactos utilizados no passado. De entre eles destaca-se uma antiga máquina de descascar arroz, trigo ou centeio. A mesma ainda funciona, tendo sido adaptada para trabalhar a motor.

 

 

Ventiladores

Também chamados de Tararas ou Erguideiras, serviam para limpar o feijão e o milho.

 

 

Habitação | Sala do Senhor

A sala do Senhor era a mais nobre da casa e tinha um uso completamente diferente do atual. Este espaço estava reservado para os usos sagrados e momentos especiais, como os funerais. O caixão era colocado ao centro, as pessoas reuniam-se em redor para o velório e dali saia para a Igreja. Também era utilizado para receber o compasso na Pascoa. Quando uma rapariga se casava servia para se expor as prendas que recebia. Fora disso a sala não tinha uso intensivo.

 

 

Habitação | Sala do Senhor – quartos anexos

Os quartos anexos à Sala do Senhor tinham também um uso restrito, como tinham melhores condições só eram usados quando alguém adoecia e o medico precisava de fazer uma visita ao domicilio. Por vezes as enfermidades eram muito graves e neste caso chamavam o padre.

 

 

Quartos comuns

Quartos usados diariamente onde dormia o casal, caracterizados por terem poucas dimensões e condições. Os mesmos não tiveram filhos e os berços dos bebés colocadas nos quartos são uma recolha do rancho noutras casas da freguesia.

 

 

Habitação | Sala dos Ofícios do Serão

Esta sala foi adaptada pelo Rancho para apresentar uma serie de artefactos utilizados durante os longos serões noturnos; trabalhos com linho, lã, algodão e passagem da roupa a ferro. Originalmente o espaço foi usado como armazém, onde predominavam as caixas de cereais. Custódio Prato tinha muito prédios e terrenos agrícolas, de onde recolhia milho e feijão, que eram guardados nessas caixas.

 

 

Habitação | Sala da Cestaria, caixas e medidas

Nesta divisão estão guardadas as caixas e medidas dos cereais, utilizados para medir os cereais das rendas pagas. Este quarto guarda também muita da cestaria tradicional da terra e usadas antigamente essencialmente pelos agricultores.

 

 

Habitação | Espaço anexo à cozinha com um forno pequeno

Este espaço servia para dar apoio à cozinha principal e tinha um pequeno forno. A cozinha tinha um forno maior que era usado quando era necessário cozer pão em grandes quantidades. Duas vezes por ano, durante as grandes jornas de trabalho, em que se realizavam as sementeiras e colheitas era necessário dar o caldo e o pão aos trabalhadores. Naquela altura segundo Daniel Bastos não se falava em ordenados, o pagamento dado aos trabalhadores era aquilo que comiam,, “O pão de milho ou broa como aqui chamavam e o caldo, que era a sopa não podiam faltar”.

O forno pequeno ainda está em funcionamento, sendo usado nos eventos do Rancho. Aqui podemos encontrar louça em barro para guardar rojões e cântaros para água fresca. Daniel Bastos frisou que já nesse tempo por vezes a proximidade das estrumeiras junto dos poços inquinava a água. As pessoas utilizavam estes recipientes para irem buscar água à fonte.

 

 

Habitação | Cozinha

Na cozinha grande existe o referido forno maior que já não é utilizado. Aqui podemos encontrar o ambiente duma cozinha antiga com louças, panelas de ferro, pratos, talheres, bancos e mesas.

 

 

Salas dos ofícios

Os currais originais foram reconvertidos pelo Rancho para exibirem os antigos ofícios de ferreiro, carpinteiro, sapateiro, barbeiro/alfaiate e uma loja/taberna.

No ferreiro podemos ver o fole, a forja ou a máquina de furar com volante. Todas as salas têm inúmeras peças para dar exemplos às pessoas do que essas pessoas faziam e que ferramentas utilizavam. Na altura que visitamos o museu duas bicicletas antigas tinham ido para conserto, porque os ferreiros antigos também compunham bicicletas.

O carpinteiro além de fazer todas as peças de madeira para as casas (caibros, ripas do telhado, portas e janelas), construía também os móveis para as mesmas (mesas, cadeiras, arcas, armários e cómodas). Na parede estava pendura uma peça antiga de um engenho em madeira.

Antigamente o sapateiro não se limitava a consertar calçado, ele fazia um sapato completamente utilizando os seus moldes. A riqueza dum sapateiro via-se pela quantidade de moldes que tinha e lhe permitia satisfazer muitos clientes diferentes.

Para entendermos as razões do barbeiro ser também alfaiate, temos que conhecer os hábitos dos seus clientes agricultores. Antigamente estes homens só ao sábado iam desfazer as suas longas barbas e cortar o cabelo. Para não lhe faltar trabalho o resto da semana dedicavam-se à confeção de roupa, essencialmente calças, coletes e casacos para homem. Este espaço também tem uma mala que era utilizada pelo barbeiro para ir ao domicilio fazer a barba e cortar o cabelo às pessoas convalescentes ou que tinham falecido.

 

 

Loja/Taberna

Esta loja/taberna usando terminologia atual tem representado três valências, mercearia, onde se comprava o arroz, açúcar, massas, tudo a granel. Estes artigos eram pesados nas balanças dentro de cartuchos de papel. A parte de vinhos e dos famosos gasosas conhecidas como pirolitos, azeites e vinagres. Outro setor era dedicado à papelaria, com cadernos de duas linhas e papel mata borrão, canetas de aparos, lápis, ponteiros e lousas. Aqui falta uma valência que era a parte de venda de fazendas e retrosaria, antigamente havia pelo menos duas lojas destas na terra.

Esta loja foi aqui montada depois do Daniel Bastos ter resgatado os móveis duma obra, onde em tempos tinha existido uma e que se preparavam para os levar para o lixo. Entretanto aconteceram outras situações semelhantes, por isso esta loja não tem apenas moveis de um só local.

Este espaço é também utilizado para dar apoio aos eventos do Rancho. As pessoas ou organizações também podem solicitar o mesmo para batizados, aniversários ou outras realizações. Durante os eventos o Rancho usa este espaço para servir as pessoas que adoram ir tomar um copo à tasca, desta forma evitam montar um bar no exterior.

 

Contactos, morada e telefone

Dados: Rancho Folclórico "Os Camponeses da Beira - Ria"
Endereço: Av de S. Mateus, nº 267 | Bunheiro-Murtosa | 3870-059 Murtosa
Telefones: 917 865 233 (Presidente), 965 753 003 (Vice-Presidente) e 961 368 184 (Secretário)
Email: Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.

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Autor

Ondas da Serra

Ondas da Serra® é um Orgão de Comunicação Social periódico, distribuído electronicamente, que visa através da inserção de notícias, promover a identidade regional, o turismo, e a divulgação/defesa do património natural, arquitectónico, pessoas, animais e tradições, dos concelhos da região norte do distrito de Aveiro, nomeadamente: Ovar, Santa Maria da Feira, Espinho, São João da Madeira, Oliveira de Azeméis, Vale de Cambra e Arouca e do forma mais geral dos restantes municípios do distrito.

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