Ondas em busca do tesouro de Trebilhadouro Trebilhadouro - Vale de Cambra
quinta, 13 dezembro 2018 09:19

Ondas em busca do tesouro de Trebilhadouro Destaque

Classifique este item
(2 votos)

Ondas da Serra foi em busca dos tesouros de Trebilhadouro, não encontramos ouro, incenso ou mirra, mas um rico percurso pedestre, o PR4, integrado na Rota da Água e da Pedra de Vale de Cambra.

Barragem Engenheiro Duarte Pacheco, no Rio CaimaEste trilho circular de 10,4 quilómetros, pode ser feito todo o ano, mas é um pouco difícil. O seu trajeto em montanha obriga a constantes subidas e descidas, por caminhos em terra batida que no inverno podem estar, como foi no nosso caso, bastante difíceis. O mesmo está bem assinalado, com exceção do ponto onde se podem ver as gravuras talhadas no granito em Trebilhadouro. Aqui descemos a serra até Fuste e fizemos o percurso em sentido inverso ao aconselhado. Os caminhos pela montanha têm pouco arvoredo, que podem ter sido reduzidos pelos incêndios.

Leia também: Fuste | História de um cão (Esta aldeia que também se chama Fuste pertence Arouca)

Neste percurso destacam-se as Gravuras Rupestres de Trebilhadouro, a igreja Matriz de S. Salvador, o cruzeiro de Rôge, a Barragem Engenheiro Duarte Pacheco, no Rio Caima e os campos agrícolas e as suas afáveis gentes.

Em Fuste, encontramos a trabalhar no campo Mafalda Guimarães, perto de completar seis décadas de existência. Sempre trabalhou na agricultura, agora embora podendo menos não quer outra vida, “Se me perguntassem o que eu queria fazer eu dizia sempre que queria trabalhar no campo”. Naquele momento estava atarefada a queimar a lenha da poda das videiras.

Alguns dos seus trabalhos compreendem plantar pasto, batatas e feijão, milho para silagem, para dar às suas duas vacas e bezerros. O pai com oitenta e oito anos ainda lhe dá uma grande ajuda. Disse que “Gostava de ver casas novas e que as pessoas investissem mais nas aldeias”. A sua maior dificuldade é a agricultura dar pouco rendimento.

Digno dos filmes de aventura é zona da barragem, quando a atravessamos pela pequena ponte, sentimo-nos invadidos por uma sensação de heróis de filmes de ação. Em baixo as águas são lançadas ao Rio Caima, que continua sereno no seu caminho.  À volta da albufeira as árvores com as suas cores outonais lançavam bonitos tons no espelho das águas.

Seguimos viajem passando por velhas pontes e subindo as escadarias para o largo onde se encontram a Igreja Matriz e cruzeiro de Rôge. Num campo ali perto o pastor Delmiro Correia, com sessenta anos, apascentava as suas doze cabras, comandadas por um autoritário e esbelto bode, que não se queria fotografar.

Em tempos tentou trabalhar na agricultura, mas os fracos rendimentos levaram-lo a procurar outras alternativas. Contou que já teve uma vacaria, por isso criar animais está na sua natureza. Anda com o seu rebanho por terrenos de pessoas que trabalham e não têm tempo para os cultivar, mas os animais são manhosos porque mal saem do curral, correm em grande velocidade para se alimentarem. Os seus animais são muito desobedientes e ele tem que andar sempre a correr atrás deles, "O meu doutor até me disse que isso só me fazia bem”.   

Iniciamos e terminamos o percurso na aldeia de Trebilhadouro, feita de granito, não é muito grande em tamanho, mas possui uma grande alma. No final do dia a névoa apoderou-se das serras e uma chuva miudinha começou a cair, convidando-nos a regressar.  

   

Informações adicionais – Fonte CM Vale de Cambra

Património cultural

A aldeia de Trabilhadouro, detentora do título “Aldeia de Portugal”, esteve desabitada durante décadas, tendo sido recuperada para turismo rural. Está perfeitamente integrada na paisagem envolvente florestal e agrícola, característica da serra com o mesmo nome. Esta aldeia mantém a traça da casa rural Portuguesa em pedra granítica, material que se estende aos caminhos. Diz a tradição que o nome deriva de um tesouro, formado por “três bilhas de ouro”. A cerca de 1 km da aldeia, num afloramento granítico ao lado de um pequeno riacho, localizam-se as gravuras de Trebilhadouro. Os motivos gravados incluem espirais, covinhas, linhas e armas (provavelmente um machado de pedra).

Em Rôge destaca-se o complexo religioso constituído pela Igreja de S. Salvador e pelo Cruzeiro, classificado Monumento Nacional, desde 1949. Ambos os monumentos apresentam traços de estilo barroco, tendo sido edificados em meados do século XVIII. O cruzeiro terá sido derrubado pelo temporal ciclónico em 1945, e restaurado em 1947.

Percurso

Com inicio na aldeia de Trebilhadouro, o percurso dirige-se para as encostas da Serra da Freita. Ao fim de percorridos cerca de 900 metros, surge um ramal à direita para as gravuras do Trebilhadouro. Aconselha-se o desvio e o regresso a este ponto. Inicia-se então a descida para Rôge, sempre por caminho florestal. Da vegetação destaca-se o pinheiro, o eucalipto, alguns carvalhos e giestas. Entre vinhas e hortas domesticas, começam a avistar-se as primeiras habitações da aldeia. Passa-se a EM550, e segue-se em direção da igreja Matriz de S. Salvador e do cruzeiro de Rôge. Dai segue-se em direção à Barragem Engenheiro Duarte Pacheco, no Rio Caima, continuando em direção a Ai-das-Figueiras. Pouco depois voltamos a atravessar a EM550, seguindo por caminho rural até Trebilhadouro. Durante a subida, são de apreciar as vistas sobre as aldeias de Fuste e Função.

Variante

O percurso inclui uma derivação / ramal de acesso a um dos pontos de interesse do percurso: as Gravuras Rupestres de Trebilhadouro. Este acesso tem uma extensão natural de250 metros, pelo que acrescenta 500 metros (ida e volta) ao percurso principal. 

Pontos de Interesse

  1. Aldeia de Trebilhadouro
  2. Gravuras rupestres de Trebilhadouro
  3. Igreja Matriz de S. Salvador - Rôge
  4. Cruzeiro de Rôge
  5. Barragem Engenheiro Duarte Pacheco, no Rio Caima

Gravuras rupestres de Trebilhadouro

As Gravuras de Trebilhadouro integram-se na denominada arte rupestre Atlântica, característica da região nordeste da Península Ibérica. Foram insculturadas entre o neocalcolítico e a idade do bronze, o que compreende o período que medeia do 4º ao 1º milénio a. C. As gravuras de Trebilhadouro encontram-se num afloramento granítico junto ao solo, ao lado de um pequeno afluente da ribeira de Fuste, a cerca de 1 km da aldeia de Trebilhadouro. Os motivos gravados incluem espirais (que chegam a ter mais de 60 cm de diâmetro), covinhas (muito numerosas e em toda a superfície), linhas (pelo menos quatro) e armas (provavelmente um machado de pedra). Comparando com o conjunto de gravuras mais próximo, a composição é aqui mais complexa que no Outeiro dos Riscos, mas semelhante à encontrada no Forno dos Mouros. Como nos restantes casos, o seu significado permanece pouco claro, podendo as gravuras estarem ligadas ao território ou ter um propósito místico.

Património natural

Do ponto de vista natural destingem-se neste percurso dois espaços distintos: as encostas da Serra da Freita e a paisagem ribeirinha, junto à Barragem Duarte Pacheco, no rio Caima. Nas encostas da Serra da Freita domina o verde dos pinheiros e eucaliptos e, junto às ribeiras, os socalcos que dividem pequenos terrenos agrícolas. Não será difícil observar espécies como o pica-pau, o gavião, bandos de perdizes, ou a borboleta acobreada-da-montanha. Ao chegar ao rio Caima, espera-o um pequeno paraíso na margem esquerda da albufeira: a Levada de Santa Cruz desenvolve-se entre florestas frondosas, propicias ao crescimento de fetos e fungos que são o habitat perfeito do lagarto-de-água, a rã ibérica ou a lontra.

Biodiversidade

O verde abunda nas encostas da serra de Trebilhadouro. Pinheiros e eucaliptos dominam a vegetação envolvente e, junto às ribeiras, os socalcos dividem pequenos terrenos agrícola. No pinhal, o constante matraquear do pica-pau é ouvido com frequência e a lameirinha cresce perto das linhas de água, onde também se pode encontrar a borboleta acobreada-da-montanha.

O gavião esgueira-se agilmente entre os troncos altos, e nos descampados os bandos de perdizes encontram o seu habitat de eleição. Ao longe, no cimo da serra, com a Freita à vista, os afloramentos graníticos abundam, e nestes imponentes monólitos crescem o craveiro-do-monte e o pólio-das-rochas, tingindo de tons rosa o austero granito.

Leia também: Percursos pedestres/bicicleta em Aveiro

 

 

Lida 328 vezes

Autor

Ondas da Serra

Ondas da Serra® é um Orgão de Comunicação Social periódico, distribuído electronicamente, que visa através da inserção de notícias, promover a identidade regional, o turismo, e a divulgação/defesa do património natural, arquitectónico, pessoas, animais e tradições, dos concelhos da região norte do distrito de Aveiro, nomeadamente: Ovar, Santa Maria da Feira, Espinho, São João da Madeira, Oliveira de Azeméis, Vale de Cambra e Arouca e do forma mais geral dos restantes municípios do distrito.

Itens relacionados

Terras de Paço de Mato, Viadal, Vilar e Gatão

O Ondas voltou à Vale de Cambra para continuar a descobrir as suas bonitas aldeias ou reencontrar alguns amigos e começar o percurso onde antes tínhamos terminado, Paço de Mato.

Yoga no Parque – As emoções conflituosas

No domingo dia 24 de março, o Ondas reuniu algumas pessoas da nossa comunidade no Parque Urbano de Ovar, para praticar Yoga. Estes encontros não têm mestres nem professores, apenas pessoas que querem praticar esta arte milenar.

Aldeia de Noninha na Serra de Montemuro

Ondas da Serra regressou ao local onde nasceu, nas encostas da Serra de Montemuro em Arouca. Não nos cansamos de trilhar os seus caminhos, respirar os seus ares e escutar os seus silêncios, por vezes distraídos pelos chocalhos dos rebanhos das vacas, cabras e ovelhas que já vão rareando.

Faça Login para postar comentários