Paraduça e suas gentes Belarmino Rodrigues, 68 anos, Maria Rosa Portinha, 75 anos, Irene Rodrigues, 66 anos e Isaura Rodrigues, 74 anos
sexta, 28 dezembro 2018 16:55

Paraduça e suas gentes

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O Ondas viajou até Paraduça – Vale de Cambra, onde conhecemos alguma das suas gentes e moinhos de rodízio. Nesta aventura tivemos como guia o PR6 – Rota dos Moinhos, que está muito bem assinalado e aconselhamos vivamente. O tempo não esteve famoso, a chuva miudinha não parou de cair, o ambiente estava enevoado e esperamos em vão que o céu mostrasse o seu sorriso.

ParaduçaComeçamos esta aventura junto da Escola Primária, o relógio eletrónico da capela fez soar as nove horas e grunhidos da matança dum porco. Esta é uma questão delicada, há argumentos fortes a favor e contra estas práticas ancestrais. Nós achamos que não temos o direito de julgar a cultura de pessoas que já o fazem há centenas de anos, que subsistem com dificuldades no interior abandonado do país e não o fazem por desporto, mas por necessidade.

Tínhamos começado o trilho quando vimos à nossa frente, uma mulher que se dirigia para o Moinho das Bouças. Esta senhora de nome Natividade Portinha, utiliza como muitos habitantes aquele moinho comunitário para moer o milho que cultiva e com a farinha fazer broa para a sua família comer na consoada do Natal. Disse-nos que durante o inverno este moinho é utilizado por toda a aldeia, porque é o melhor para fazer broa, já que a farinha fica mais fina.

Não se considera uma especialista e precisou da ajuda da prima, que foi lá na véspera deixar umas cunhas que são usadas para obter determinadas espessuras de farinha. Quando chegou bastou-lhe ir buscar a água a uma levada ali perto, conhecida como o “Cubo do Moinho”, para fazer mover o rodízio que impulsiona a pedra circular da mó.

Continuando o caminho, fomos surpreendidos agradavelmente por uma floresta bem tratada de pinheiros, com vista para o vale onde corre o Rio Teixeira e vimos algumas áreas que andam a ser reflorestadas. Nós que já vimos muitas terras por aqui devastadas pelos incêndios, ficamos contentes e esperemos que continuem a recuperar o património natural.

Leia também: Varandas da Felgueira - Vale Mágico

Quando tínhamos já dado a volta ao trilho e nos encontrávamos novamente na aldeia, encontramos um grupo de agricultores, que se pela manhã maldiziam a chuva, tiveram mesmo assim de improvisarem material impermeável, para a água não lhes chegar aos ossos. O grupo era composto pelo Belarmino Rodrigues, 68 anos, Maria Rosa Portinha, 75 anos, Irene Rodrigues, 66 anos e Isaura Rodrigues, 74 anos. Um pouco mais tarde vimos a mais velha deste grupo a transportar fortemente à cabeça um grande molho de folhagem de milho, que devia fazer corar de vergonha certas gentes mais novas.

Antes de terminarmos ainda vimos uma carcaça de porco dependurada numa arrecadação, à espera do resto do desmanche. O resto das miudezas estavam espalhadas por recipientes de várias formas e tamanhos.

Perguntamos às pessoas e lá conseguimos saber quem é que dali cozia pão e fomos encontrar a trabalhar com afinco, Lucinda e Napoleão Tavares, ambos sexagenários, com três filhos maiores casados, já sendo avós de quatro netos.

O casal sempre trabalhou na agricultura e criam animais, têm uma vaca, dez ovelhas, cinco cabras, porcos e galinhas. No dia anterior cozeram onze broas de milho no seu forno e mostraram-nos a masseira, onde guardam algumas e ofereceram-nos amavelmente duas para a nossa consoada.  A broa é feita com o seu cereal, moído no moinho acima referido, este ano conseguiram produzir cerca de 150 alqueires.

Duma forma resumida a senhora explicou o processo de fabrico, peneiram a farinha na masseira e abrem um buraco na mesma, colocando sal e água fervida, misturam os ingredientes, juntam o fermento e amassam bem. Depois deixam levedar cerca de uma hora e só então levam ao forno previamente aquecido para as cozer. A senhora antes de as levar ao forno, faz sempre uma cruz na massa e benze o pão.

O porco que criaram tinha cerca de duzentos quilos e com a sua carne vão fazer rojões, chouriços e outros preparos habituas. Ainda usam uma salgadeira para preservar as carnes, disse o homem com satisfação, “Depois a gente come e os filhos levam alguma que são emigrantes, é para o que a gente trabalha, para ter uma casa mais ou menos farta.

O seu natal iria ser passado em casa, com os filhos, noras e netos. Na sua ceia vão comer as suas carnes de porco, cabrito, borrego, e beber do seu vinho verde e usar do seu azeite. Os mesmos vivem da agricultura e são quase autossuficientes, rematando o homem para final de conversa, “A agricultura não dá para nada, dá para nós comermos e bebermos, os filhos, tirando o mais novo, é que foram obrigados a emigrar que isto não dava nada.

Despedimo-nos destas simpáticas gentes, que nos receberam tão bem e prometemos regressar porque há ainda muito para contar.

 

Paraduça – fonte CM de Vale de Cambra

 

Paraduça é uma pequena aldeia da freguesia de Areões, concelho de Vale de Cambra, situada entre as Serras da Arada e do Arestal, no cimo de um monte onde corre a Oeste a Ribeira de Paraduça e a Nordeste a Ribeira de Agualva. Ambas as Ribeiras confluem com o Rio Teixeira que corre a Leste da aldeia.

Os vales encaixados e a impressionante biodiversidade destes cursos de água em contraste com os desníveis do maciço montanhoso criam um cenário de excelência, no qual se destacam alguns recantos como a cascata do Poço do Linho, localizada à entrada da aldeia, na Ribeira de Paraduça; as margens do Vale da Ribeira de Agualva, que alberga uma das mais belas florestas da região, ou os vários Poços do Rio Teixeira, considerado um dos rios mais bem preservados da Europa. Para visitar estes locais consulte mais informações no site da Rota da Água e da Pedra.

Em 2004 foram recuperados 5 dos moinhos que serviam a aldeia de Paraduça (o Moinho do Cabo, o das Bouças, o da Cavada, o do Burmeiral e o do Castelo). Todos eles são alimentados pela mesma levada de água, com origem na Ribeira de Paraduça, localizando-se a Noroeste da Aldeia, em área agrícola.

Quando foram recuperados, pela Associação de Desenvolvimento Turístico e Cultural da aldeia, os moinhos estavam, na sua grande maioria abandonados e em acelerado estado de degradação. Atualmente quatro desses moinhos encontram-se em funcionamento, sendo regularmente utilizados pela população, e um quinto moinho foi exteriormente recuperado, no entanto não possui sistema de moagem.

 

Avaliação do percurso

 

Moinho das Bouças

 

Lida 272 vezes Modificado em domingo, 31 março 2019 02:29

Autor

Ondas da Serra

Ondas da Serra® é um Orgão de Comunicação Social periódico, distribuído electronicamente, que visa através da inserção de notícias, promover a identidade regional, o turismo, e a divulgação/defesa do património natural, arquitectónico, pessoas, animais e tradições, dos concelhos da região norte do distrito de Aveiro, nomeadamente: Ovar, Santa Maria da Feira, Espinho, São João da Madeira, Oliveira de Azeméis, Vale de Cambra e Arouca e do forma mais geral dos restantes municípios do distrito.

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