Camino de Hierro de La Fregeneda por túneis e pontes vertiginosos Camino de Hierro - La Fregeneda - Salamanca -Espanha - Rota dos Túneis e Pontes Ondas da Serra

Camino de Hierro de La Fregeneda por túneis e pontes vertiginosos Destaque

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O “Camino de Hierro” ou Rota dos Túneis e Pontes como é conhecido em Portugal pelos amantes das caminhadas e aventuras, fica localizado em La Fregeneda em Espanha, perto da fronteira Portuguesa de Barca d’Alva. Este artigo relata a nossa segunda incursão neste caminho que aconselhamos vivamente pela sua arrebatação ambiental, histórica e engenharia de assombro. Nestes 17 km da antiga linha do Douro também desativada na parte Espanhola, foi construído com muito suor, sangue e lágrimas uma via ferroviária que rasgou as Arribas do Douro, através da construção neste troço de 20 túneis e 10 pontes. Depois da morte da via esta forma de recuperação turística veio dar merecidas honrarias a um local que já tinha sido tragado pelo tempo.

Camino de Hierro em La Fregeneda - Salamanca - Espanha

Camino de Hierro - Rota dos Túneis e Pontes

Foto: Início do percurso na antiga estação de La Fregeneda - Salamanca - Espanha

A nossa equipa voltou a um dos melhores percursos pedestres que já trilhamos, referimo-nos ao “Camino de Hierro”, que fica localizado perto da vila espanhola de La Fregeneda, província de Salamanca, comunidade autónoma de Castela e Leão e de Barca d’Alva em Portugal, caracterizado pelos seus 17 km, atravessados por 20 túneis e 10 pontes. No primeiro trabalho fizemos um levantamento exaustivo do percurso enquanto neste vamos deixar-nos levar pelas impressões, sensações e deambulações.

Este bendito projeto recuperou parte da antiga linha do Douro ferroviária encerrada na parte Espanhola até Salamanca. Do nosso lado foi encerrada entre o Pocinho e Barca D’Alva que voltamos a repetir até à exaustão merecia pela sua beleza ser reativada. Quer saber o que é viajar na parte portuguesa até ao Pocinho, leia a nossa aventura neste artigo, Conheça a Linha do Douro e vinhas Património da Humanidade.

Camino de Hierro - Rota dos Túneis e Pontes

Foto: Visitantes num túnel com as lanternas e coletes 

Desta vez fomos deambular para o Douro Superior, ficando alojados num alojamento local em Freixo de Espada à Cinta, de 6 a 8 de março de 2026, onde visitamos a parte histórica da cidade e as suas janelas manuelinas, um Freixo com 550 anos e a sua torre altaneira. No cimo do miradouro do Penedo Durão vimos centenas de grifos que tinham sido alimentados num espetáculo que nunca vamos esquecer. Caminhamos na Calçada Romana de Alpajares. Fomos ver e inspirar o aroma das amendoeiras e os lagos do Sabor para os lados de Felgar - Torre de Moncorvo.

Agora quem fizer todo o percurso é recebido no Cais de Vega Terrón

No dia 8 de março logo pela manhã fomos em direção a Barca d’Alva e passamos sobre o Rio Douro e a ponte internacional sobre o Rio Águeda, para chegarmos ao Cais de Vega Terrón já em Espanha e estacionar o carro no seu parque onde já estavam alguns autocarros portugueses com tugas do Porto, Aveiro e arredores. É agora aqui que se recebem os visitantes e são dadas as informações sobre a história deste percurso, segurança e aspetos logísticos. Depois de efetuados estes procedimentos um autocarro deste projeto leva-o para o começo. No final da caminhada que termina perto deste cais já tem o seu carro ou autocarro à sua disposição. Esta foi uma modificação desde a nossa anterior visita que tem muitas vantagens.

Camino de Hierro - Rota dos Túneis e Pontes

Foto: Cais Vega Terrón - Salamanca - Espanha, visitantes do Porto e arredores, ao fundo antiga ponte ferroviária que ligava La Fregeneda a Barca d'Alva sobre o Rio Águeda que aqui desagua no Rio Douro 

As pessoas podem agora fazer um percurso menor

A outra alteração é o facto de agora também existir um percurso menor com 9 km para as pessoas que não querem caminhar tanto, que começa na vila de La Fregeneda e acede à antiga ferrovia por um caminho e que termina também no Cais de Vega Terrón.  

Centro de Recepção aos Visitantes - Cais Vega Terrom

No Centro de Recepção aos Visitantes, no Cais de Veja Terrón, a apresentação ficou a cargo de Ana Câmara, que na nossa língua de Camões fez uma apresentação do percurso e falou nas regras de segurança. Neste local pode também no final do percurso tomar uma bebida ou fazer a sua refeição com uma vista soberba sobre o Rio Douro e Portugal com Barca d'Alva ao fundo e a sua icónica ponte. 

Centro de Recessão aos Visitantes, no Cais de Veja Terrón - Camino de Hierro - Rota dos Túneis e Pontes

Foto: Centro de recepção aos visitantes de Vega Terrón - Salamanca - Espanha

A mesma começou por dizer que não iria estar no percurso, mas no atendimento do telefone de emergência. Sobre o percurso explicou que são os últimos 17 km da parte Espanhola do que foi a Linha do Douro, construída no último terço do Século XIX, para ligar Salamanca ao Porto. Esta parte do percurso, no entanto, foi construída em apenas 4 anos, entre 1883 e 1887.

Esta foi uma das grandes obras de engenharia civil da Europa daquela época. Esta grandeza é entendida quando os visitantes passam pelos 20 túneis,10 pontes, casas dos guardas da linha, sinalética original, plataformas, mas sobretudo os seus elementos básicos, carris, travessas e balastros (pedras). Esta obra que abriu caminho pelas Arribas do Douro e com vista para o vale do Rio Águeda, teve como principal desafio vencer os 400 metros de desnível.

Camino de Hierro - Rota dos Túneis e Pontes

Foto: Ana Câmara - Funcionária do Camino de Hierro

A principal motivação para a sua construção foi comercial e quem investiu o seu dinheiro foi a Associação de Comerciantes do Porto, constituída por grandes empresários e banqueiros portugueses. Estes homens queriam ir buscar cereais a Castela e ao mesmo tempo levar para cima o seu Vinho do Porto e todos os produtos que vinham da América e Ultramar, como o cacau, café e açúcar. No entanto, em poucos anos a obra começou a ficar ultrapassada pela construção de estradas e a linha a não ser usada para o transporte de mercadorias, por estas razões esta linha foi deficitária praticamente desde o início.

A sua construção foi difícil a nível económico, técnico e humano, onde chegaram a trabalhar cerca de 2 mil pessoas. O avolumar destes problemas levou a que a mesma fosse encerrada parcialmente em 1985, primeiramente nos 78 km finais do lado espanhol, desde a localidade de Fonte de São Estevão e os primeiros 30 km do lado português até ao Pocinho.

A antiga estação de La Fregeneda foi muito importante no passado, com o seu caráter internacional e ser a última antes de Portugal, tendo vários serviços, como Polícia, aduaneiro e faturação. Neste local viviam muitas pessoas, onde até existia uma escola e uma igreja. Depois do seu encerramento com muita pressão de pessoas e associações de defesa do patrimônio no ano de 2000 foi declarada bem de interesse cultural. Esta classificação foi o ponto de partida para posteriormente o governo Regional de Salamanca reabilitasse estes últimos km onde hoje se pode fazer a visita e se preserva esta história.

Percurso histórico, paisagístico e natural

Para quem gosta de história ferroviária que se cruza com a revolução industrial e advento da máquina a vapor percorrer estes 17 km é regressar ao passado já que todo o cenário nos remete para o tempo em que o labor era feito por homens à força de braços com rebentamentos de dinamites e por vezes estropiações maléficas dos corpos que indubitavelmente acabaram também por ceifaram incontáveis vidas aos que abriram os túneis e montaram as vertiginosas pontes. Estes mártires estavam longe de imaginar que um dia tudo seria encerrado e os túneis 1 e 3 iriam alojar criaturas que vivem de cabeça para baixo conhecidas como morcegos e que por cima têm aqui uma das maiores comunidades da Península Ibérica com cerca de 12 mil criaturas.

Camino de Hierro - Rota dos Túneis e Pontes

Foto: Maria Almeida, António Correia, ambos de Tondela, Paulo de Aveiro e Helena Ferreira, os dois primeiros de Tondela e os últimos de Aveiro. Estes visitantes fizeram a visita pela primeira vez e estavam integrados no autocarro de Aveiro.

Um facto curioso próximo de uma saída de um destes túneis foi que pensávamos estar a escutar um comboio em aproximação, pelo zunir dos carris e ruído abafado da máquina. Embora soubéssemos que tal era inverossímil pelo sim pelo não apressamos a sair do mesmo e lá surgiu o aparato que afinal era a carrinha de apoio aos visitantes que tem rodas de ferro, com dois sorridentes funcionários que pelas caras já devem ter assustado muita gente.

Camino de Hierro - Rota dos Túneis e Pontes

Foto: Juan Luís e Cristina - Funcionários do Camino de Hierro, equipa do carro de apoio aos visitantes que funciona no trilho e estradas

Pontualmente éramos sobrevoados pelos imponentes grifos que parecem saber que o seu tamanho impõe respeito e fazem voos rasantes aos visitantes como para reclamar que aquele é o seu território e o melhor era porém-se na alheta. Se gosta de avifauna leve uns binóculos para apreciar melhor estes pássaros que podem chegar a ter 2,8 metros de envergadura de asa. Estas aves são uma das maiores aves de rapina da Península Ibérica e são presença constante no percurso, especialmente nas zonas de penhascos e vales profundos do rio Águeda e do Douro.

Se em cima temos estas aves nas encostas e laterais do percurso podemos dar de caras com manadas de vacas da raça Zamora, de cor castanha que nos surpreendem pela sua grandeza, mas que tem uma grande agilidade quando trepam afincadamente pelas íngremes encostas com os seus corpulentos corpos a bambolear, mas cheios de força e raça bovina.

Camino de Hierro - Rota dos Túneis e Pontes

Foto: Gado Bovino da raça Zamora junto ao Camino de Hierro

Esta antiga linha fica junto ao vale do Rio Águeda, afluente do Douro, junto a Barca d’Alva, caracterizado pelos seus vales profundos, que podem chegar aos 400 metros, rica geologia, fauna e flora, sendo um santuário para as aves. O rio serve de fronteira natural entre as províncias de Salamanca e Zamora (Espanha) e o distrito de Bragança (Portugal). Por isso quando estiver a caminhar do lado oposto são terras lusitanas onde poderá ver perto do Douro quintas de produção vinícolas, com os seus reconhecidos socalcos.

Rio Águeda e Arribas do Douro

Rio Águeda - Camino de Hierro - Rota dos Túneis e Pontes

Foto: Rio Águeda junto ao Camino de Hierro, do outro lado é Portugal e socalcos das vinhas da Região Demarcada do Douro

O Rio Águeda e as Arribas do Douro formam um dos canhões fluviais mais profundos da Europa, situados na fronteira entre Portugal e Espanha. O Águeda, que nasce em Salamanca, desagua no Douro em Barca d'Alva, servindo como uma linha divisória natural e selvagem, já que o seu troço final não possui barragens.

As arribas são escarpas de granito monumentais que chegam a atingir 200 metros de altura. Estas paredes rochosas criam um microclima mediterrânico único, permitindo que a vegetação típica (como oliveiras e amendoeiras) floresça em socalcos, contrastando com o planalto frio que as rodeia.

Do ponto de vista ecológico, a região é um santuário para aves raras, como o britango (abutre-do-egito) e a cegonha-preta, que aproveitam o isolamento das fragas para nidificar. Atualmente, a área é protegida pelo Parque Natural do Douro Internacional, sendo um destino de eleição para o turismo de natureza, trilhos pedestres e observação de fauna. 

Camino de Hierro - Rota dos Túneis e Pontes

Foto: Vale do Rio Águeda e Arribas del Douro 

Nós selecionamos como positivo a amabilidade de toda a equipa deste caminho, nas suas apresentações, apoio e informações, da riqueza da fauna com especial foco nas aves majestosas que patrulham os céus, a flora das arribas, o vale do Rio Águeda, os túneis e pontes.

Como melhorias podiam limpar um pouco o antigo balatro (cascalho e pedras) existente nos caminhos nas laterais do percurso e colocarem painéis com várias línguas incluindo a nossa com informações breves sobre a sua história, fauna, flora e geologia. Seria também interessante colocarem uma antiga locomotiva num dos túneis (com exceção do 1 ou 3) no começo ou fim para ficar resguardado da meteorologia e as pessoas verem um exemplo duma dessas antigas máquinas fogosas ainda em cima dos carris.

Camino de Hierro - Rota dos Túneis e Pontes

Foto: Ondas da Serra a terminar o percurso

Gostaríamos também de ver um dia a estrada de acesso ao começo do percurso retificada e aproveitarem as instalações degradadas da antiga estação de La Fregeneda para fazer um pequeno museu dedicado a esta linha e ao advento ferroviário e recorrendo à multimédia para melhor transmitirem a informação.

Reportagem completa sobre o Camino de Hierro

Quer ler a nossa reportagem exaustiva da primeira visita, leia o nosso artigo, Camino de Hierro La Fregeneda na Rota dos Túneis e Pontes

Site oficial do Camino de Hierro

Site oficial do Camino de Hierro - Aquisição de bilhetes online: caminodehierro.es (no local não há venda de bilhetes).

Reportagem: Jornalista Rosa Maria e Fotografia e Composição Técnica, Sílvio Dias.

Galeria de fotos do Camino de Hierro - Rota dos Túneis e Pontes

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Autor

Rosa Maria

Rosa Maria, é Diretora/Editora do Orgão de Comunicação Social, Jornal Online, Ondas da Serra, inscrito na ERC - Entidade Reguladora para a Comunicação Social, registo nº 126907 de 16-FEV-2017, com o Cartão de Equiparada a Jornalista n. TE-734 A, cofundadora da marca Ondas da Serra, registada no INPI - Instituto Nacional da Propriedade Industrial, processo nº 567314, publicado no Boletim de Propriedade Industrial nº 190/2016, de 30 de Setembro 2016.

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O Camino de Hierro, fica localizado em La Fregeneda, município raiano da Diputación de Salamanca, comunidade autónoma de Castilla y León, em Espanha. Esta Rota dos Túneis e Pontes, como é conhecida em Portugal, tem início naquela antiga estação e termina na Ponte Internacional Ferroviária sobre o Rio Águeda, que ali desagua no Rio Douro e faz fronteira com Barca D’Alva em Portugal. Este percurso pedestre oficial está bem organizado, sinalizado e com guias que prestam toda ajuda necessária. O traçado aproveita uma fração da antiga Linha Ferroviária do Douro desativada, que foi construída no séc. XIX. Naquela época esta foi uma obra de referência pelas dificuldades em vencer uma geográfica acidentada, que teve custos elevados a nível humano e económico. Na sua construção chegaram a trabalhar duas mil pessoas, que operavam em condições agrestes e algumas tiveram acidentes fatais. Esta caminhada com 17 km de extensão, tem vindo aumentar de popularidade, pela impressionante sucessão de 20 túneis e 10 pontes e estar inserida no Parque Natural das Arribas do Douro. As suas obras audazes de engenharia e natureza vertiginosa têm levado em crescendo os portugueses para esta aventura pela sua espetacularidade e experiência inesquecível. Neste artigo irá encontrar um guia descritivo, histórico, técnico, informativo, com mapas e fotos de modo a poder conhecer o percurso e poder planear da melhor forma a sua viagem se pretender vencer este desafio.