quarta, 25 outubro 2017 15:44

Cortegaça | Rosto de pescadores Destaque

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Ondas da Serra esteve por estes dias à tarde na praia de Cortegaça, onde andamos à fisga de “estórias” de pescadores, que encontramos naquela tarde cinzenta, povoada de chuviscos aqui e além. Junto ao paredão frontal da avenida principal, fomos encontrar alguns homens que se entretinham a pescar. O mar encontrava-se revolto, segundo a opinião bom para uns e mau para outros.

Neste local encontramos na pesca desportiva um antigo jogador e treinador de futebol e um industrial. Falamos também com dois pescadores que retiram parte do seu sustendo do mar, um ainda na faina e o outro já retirado. O primeiro com uma catástrofe que marcou no passado a sua ida ao mar.

Alguns pescadores para a fotografia esconderam a cervejita e esboçaram um sorriso. A melhor parte foi quando se puseram a “discutir” quem era maior o aldrabão no local. Daqueles que aumentam o peso e número de peixes para impressionarem amigos e familiares. Também falaram na “guerra antiga” entre pescadores e caçadores e quando apareceu um que se converteu à peixaria a conversa animou.

Tínhamos nós acabado de falar com os pescadores e o sol já se punha no horizonte, quando vimos o borralho a lutar pelos restos de caranguejos que um pescador abandonou no local.      

  
 

João Reis

O pescador João Reis é natural de Cortegaça, tem 52 anos e gere uma empresa gráfica. Tem um casal de filhos já adultos que nas suas palavras “já estão arrumados”. Pela cara suspeitamos que a tarde lhe estava a correr bem, efetivamente já tinha pescado oito robalos, um deles à nossa frente.

Já pesca há 44 anos, tendo começado no rio e considerando este passatempo calmo e espetacular.

Na sua opinião o mar revolto ajuda a pesca porque mexe mais com o fundo, levantando caranguejos e chamando o peixe para o comer.

Gosta muito daquela zona e geralmente vem sozinho à sexta ou sábado à tarde, os outros dias são para trabalhar e família. Aquele local é frequentado também por gente de longe como Braga e Guimarães.

Naquele paredão já todos se conhecem e existe uma grande amizade. Efetivamente passado uns minutos já estavam todos a “discutir” quem tinha os dotes de melhor pescador. Mas segundo ele a pesca tem os seus segredos, “Mas a pesca tem muito que saber, as pessoas não sabem o que é preciso para se saber pescar, a pesca tem muitas variantes, temos que pescar quando o mar está bom, está bravo, quando as águas estão claras, quando as águas estão escuras, quando têm correntes, nos paredões, os iscos que temos que utilizar, escrevia-se um livro sobre isso”.

Mas segundo ele a pesca já não é a mesma coisa, cada vez é mais difícil, há menos peixe e cada vez são mais pequenos. Aqui há uns anos pescava com regularidade peixes com dois quilos, este ano acha que ainda não tirou nenhum com esse peso.

A conversa animou quando perguntamos se o pescador é sempre verdadeiro ou às vezes inventa um bocado. Ele acha que há todo o tipo de gente e aqueles que fazem um pouco de fantasia e há outros que não (risos). Fazem isso para não parecer mal porque o pescador só é bom se tirar peixe.

O peixe maior que tirou foi um robalo com cinco quilos, ali em Cortegaça. Esse dia coincidiu com o pedido de casamento do seu genro à filha. O peixe foi aproveitado para comemorar e assado para toda a família.

 

 

Henrique Eichmann

Quando estávamos a falar com o João Reis a conversa animou como já foi dito quando se falou naqueles pescadores que adicionam quilos e números ao peixe. Isto foi o pretexto para o João mandar a “boca” ao pescador ao lado que estava com vontade de indisciplinar o local e para quem a pesca deve ser só um pretexto para se divertir.

Este pescador chama-se Henrique Eichmann, tem 70 anos de idade, é um antigo jogador e treinador de futebol. Como jogador foi guarda-redes no Beira-Mar, Sporting Clube de Espinho, Clube Desportivo de Tondela e Académico de Viseu, que foi a sua escola. Como treinador orientou no Sporting Clube de Esmoriz.

É natural do Caramulo, mas reside em Esmoriz, neste momento está reformado e tem muito tempo para pescar. Desde os 18/20 anos que a pesca é o seu passatempo predileto.

Como o clima estava propício lançamos outra acha para a fogueira e perguntamos a relação que os caçadores têm com os pescadores. Ele disse logo que não vão há bola uns com os outros, “Isso é uma aldrabice total. Eu conheço centenas de caçadores que abandonaram a sua profissão de tiro e vieram dar tiro para o pé dos pescadores, só que saiu-lhes o tiro pela culatra”. Pensamos que da forma que foi dito isto é mais uma “guerra” salutar e acaba por ser levado na brincadeira.

Naquele dia a pesca não lhe estava a correr bem, disse que era do mar bravo, mas mesmo ao lado o seu colega João Reis não tinha a mesma opinião. Isto foi novamente pretexto para utilizarem a retorica para cada um defender a sua opinião, o Henrique Eichmann dizia que não gostava de peixes pequenos e os deitava fora.

Esta cumplicidade entre os dois justificasse porque é amigo de longa data do João Reis, o qual foi seu jogador de futebol como júnior no Sporting Clube de Esmoriz.

Disse pescar porque lhe traz sossego, aconselha a toda agente e aos jovens em particular, que às vezes andam por aí a fazer asneiras, “Se eles viessem para a pesca ponderavam melhora a vida e tinham mais sucesso”.

Recorda como dia perfeito de pesca as que fez na Guiné. Na altura ele era fuzileiro e foi o seu ajudante de enfermagem que o ensinou a pescar. O mesmo ainda está vivo e trabalhar na Casa Lisboa que vende artigos de campo e pesca.

 

 

Joaquim Dias Moreira

Já se fazia tarde e a luz diminuía a anunciar o crepúsculo quando encontramos a vir embora da pesca, Joaquim Dias Moreira, mais conhecido por Zé Moreno ou Zé Navalhas. Caminhava transportando à mão a sua bicicleta, cana ao ombro e sendo acompanhado pela sua irrequieta cadela “Borboleta”. Com 50 anos de idade, a rudeza da vida marcou-lhe o rosto e o sentimento.

Um facto curioso é muitos pescadores quando que se pergunta de onde são, responderam dizendo que são da “Praia de Cortegaça” ou da “Praia do Furadouro”. Isto poderá estar relacionado com o facto de ser na praia que passam mais tempo para tirarem o seu sustento, onde viveram antigamente em palheiros e muitos perderam a vida e outras rezaram pela vinda dos seus "homes".

Esteve naquele local à pesca do robalo, tendo apanhado quatro. O mar assim revolto é melhor para pescar à cana, mas para colocar as redes é pior. Quisemos saber como iria prepara o peixe, “Quando é robalo miúdo é frito e depois leva uma cebolada por cima, pimenta, vinagre e um pouco de calda de tomate “. Vai come-los no dia seguinte com a sua mulher e três filhos já adultos, dois rapazes e uma rapariga.

Na pesca trabalhou toda a vida na arte xávega a que chama “artes chaves” e quando pode à cana.

No Furadouro trabalha na “Companha do Jacinto” há sete anos, no barco “Jovem”, que está a no areal a norte. Neste barco a sua função é “Ir à ré, botar o motor abaixo ao home, sou eu que largo a rede na ré, depois ao vir para terra, tenho que levantar o motor novamente”. As idas ao mar por semana dependem do seu estado, no inverno é mais difícil, “Conforme o mar deixar, no inverno não deixa. Agora temos o barco aparelhado outra vez. Se esta semana o mar deixar ainda vamos lá experimentar, se não temos que guardar o material todo”.

Disse sobreviver com dificuldades com o dinheiro que ganha na companha, que diz que “É para matar a fome do dia a dia”. Também anda no paredão da praia ao marisco, perceba, búzios e lapa. Também anda à bicha para vender aos pescadores que apanha no mesmo local. Naquela noite ia tentar apanhar alguma “Vou ver se apanho duas ou três doses para agente comer”. Naquele dia apanhou 16 quilos de perceba. O seu rendimento exclusivo é da pesca, quando não dá não ganha.

A sua cadela, muito agitada andava por ali a ladrar a tudo o que mexia. Ele muito orgulho disse chamar-se "Borboleta" e que tinha 5 anos. Quando nos viu a tirar fotos pediu-nos para depois lhe darmos uma, promessa que vai ser cumprida. Disse que tinha muito gosto na mesma e que a leva por vezes na bicicleta numa cestinha.

Há uns quatro anos uma fatalidade marcou a sua vida, o naufrágio do barco “Jovem” quando entrava no mar do Furadouro para irem à pesca. Faleceu o seu primo e o filho do “Zé Máro”, Sr. Albano. Viu também falecer de Ovar o Sr. Benjamim, que foi massagista da Ovarense e do São Vicente Pereira. A embarcação com cinco pescadores a bordo virou-se quando foi apanhada por uma onda no momento em que seguia para o mar. Apesar deste episódio disse não ter ficado com medo de ir ao mar, mas andou uns meses um pouco doente, mas aquilo passou, “A minha alegria é de andar ao mar mas quando acontece, acontece.”

Esta gente do mar, desde sempre foram crentes porque nas horas da aflição só tem o Divino para os salvar, talvez por isso tenha um terço na sua bicicleta.

 

 

João Garranas

Quando encontramos o Zé Moreno ele estava acompanhado por um velho pescador, que o rosto, forma de vestir e de ser, demostram a sua simplicidade e vocação marítima. De seu nome João Garranas, já leva sete décadas de vida, está reformado da pesca, sendo de Cortegaça.

Com a sua idade pesca à cana quando pode e lhe apetece. Pescou durante muitos anos na arte Xávega. Tem um casal de filhos, que não trabalham na pesca, a filha trabalha numa escola de condução e filho trabalha em Paços de Brandão na Cifial.

Agora na reforma ocupa o tempo na lavoura, aos “meios dias” para ganhar algum por fora porque a sua reforma é pequena. Vai às vezes ao café ou até junto do paredão como foi o caso daquele dia, ver os seus colegas à pesca. Pediu ao Zé que lhe arranjasse um bocado de ameijoa para ir à pesca, mas tem que comprar chumbo porque perde-se muito no mar. Por causa dessa falta não tem ido à pesca, “Como não tenho dinheiro para comprar chumbo não pesco”.

O último barco em que trabalhou chamava-se “Nazareno” de Ovar, da campanha com o mesmo nome. No local onde a mesma existia a norte da avenida junto à praia foi construído um hotel. Nesse barracão era onde guardavam os apetrechos da faina e entre as quatro e as cinco da manhã acordavam para irem trabalhar.

Afirmou que é preciso ter um pouco de coragem, “Já vi a morte de afogado por umas poucas vezes”. Ele explicou que não ia a bordo do barco ficava em terra, por vezes o mar fazia um lago, ele e outros iam a empurra-lo por lá fora, em certos locais apanhava um “sequeiro” e de repente do fundo vinha uma vaga que os cobria. Para se salvarem tinham que se agarrar à corda que ligava o barco ao trator, que depois era utilizada para puxar a rede, para regressarem à praia.

 

 

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Autor

Ondas da Serra

Ondas da Serra® é um Orgão de Comunicação Social periódico, distribuído electronicamente, que visa através da inserção de notícias, promover a identidade regional, o turismo, e a divulgação/defesa do património natural, arquitectónico, pessoas, animais e tradições, dos concelhos da região norte do distrito de Aveiro, nomeadamente: Ovar, Santa Maria da Feira, Espinho, São João da Madeira, Oliveira de Azeméis, Vale de Cambra e Arouca e do forma mais geral dos restantes municípios do distrito.

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