O regresso a Santiago de Compostela Catedral de Santiago de Compostela

O regresso a Santiago de Compostela

Classifique este item
(1 Vote)

MAY WE MEET AGAIN, foi desta forma que terminamos o artigo da nossa primeira viagem pelo caminho central português, para Santiago de Compostela. Ficamos, contudo, com a sensação que não tínhamos completado a nossa missão, por isso passados cerca de dois meses regressamos para terminar a demanda.

Catedral de Santiago de CompostelaPorto - Santiago de Compostela de bicicleta

Como da primeira vez, fomos de bicicleta, partimos do Porto no dia 21 outubro. Nesta cidade um condutor na nossa traseira buzinou, parou ao nosso lado, abriu o vidro, pensávamos o que de errado poderíamos ter feito, mas ele apenas nos queria desejar bom caminho e isto repetiu-se mais vezes, dando bons auspícios para a viagem que estava a começar.

Três dias para chegar do Porto a Santiago

Conseguimos chegar em três dias à cidade, como estava previsto. O quarto dia foi para cumprir os rituais e o quinto para regressar de comboio. Desde vez, organizamo-nos melhor, com ferramentas para consertos rápidos, material para furos, suporte no guiador e microfone para o telemóvel, colete refletor com a nossa marca e a bandeirinha de Portugal.

Cada caminho é diferente. Neste tivemos menos horas de sol, o Minho já sem verde milho, os campos mais despidos e o tempo mais sombrio. Os trilhos estavam menos vivos de peregrinos, de vendas e negociatas, principalmente em Espanha.

Pernoita em Ponte de Lima

No primeiro dia descansamos em Ponte de Lima, o albergue junto à ponte romana estava fechado para desinfestação, por isso ficamos alojados na pousada da juventude. Ao jantar comemos o prato típico da zona, o arroz de sarrabulho, acompanhado de bom vinho verde. Esta energia foi usada para no dia seguinte vencermos a difícil Serra da Labruja. Pelo meio partiu-se o suporte da mochila e tivemos que fazer bastantes quilómetros com ela às costas. À boa maneira portuguesa, no Porriño, paramos numa drogaria e resolvemos a situação com grandes braçadeiras plásticas, o que nos aliviou o caminho.   

Leia também: A reportagem sobre a primeira viagem, Bom caminho - Buen camino

Nestes montes, onde os penedos atrasam o peregrino, encontramos em dificuldades um grupo de dois casais mexicanos que residem e trabalham em Chicago, Ramon e Rosa Jimenez e Miguel e Manuela Estrada

Depois desta canseira paramos no “Bar da Agualonga”, com esplêndida vista para a serra que tínhamos acabado de vencer, onde fomos bem-recebidos pelo Fernando Silva. Aqui também descansavam duas turistas norte-americanas, Kit Cassinghan, lifeguard e a Donna Ransom, terapeuta, do Ohio.  

Pernoita na Redondela

No segundo dia descansamos na Redondela, ao jantar um jovem cabisbaixo por desventuras de amor e que viajava sozinho, cumprimentou-nos, perguntou se eramos portugueses. Ele era de Viseu e acabamos por partilhar as nossas desventuras. No final ficamos mais consolados e aconchegados. Não estamos sozinhos, juntos somos mais fortes, não é uma utopia. Viver em sociedade implica preocuparmo-nos com o nosso semelhante, algo que também se impõem na nossa condição de peregrinos. No entanto há certas pessoas que teimam em ser egoístas, ignoram tudo no mundo que vá para além delas e acabam por sofrer quando amores, amigos ou familiares se vão.

No terceiro dia chegamos a Santiago de Compostela

No final do terceiro dia chegamos a Santiago, muito cansados, mas felizes. Ficamos hospedados no albergue de São Lázaro. Depois duma noite de descanso renascemos para um novo dia para ver com desagrado que chovia copiosamente.  É assim o caminho, é assim a vida, nada é perfeito e temos que aceitar e nos adaptar. Na primeira viagem tivemos pouco tempo, mas bom tempo, nesta tivemos muito tempo, mas mau tempo. Não deixamos, contudo, que a chuva nos impedisse de realizar o que tínhamos em mente e cumprir os rituais.

Visita ao Glorioso Pórtico da Gloria de Mestre Mateus

Fomos bem cedo levantar à Oficina do Peregrino a Compostela, como fomos dos primeiros ofereceram-nos um bilhete para as 19h00 ir visitar o magnifico Pórtico da Gloria, do Mestre Mateus. Fomos depois à catedral rezar, acender umas velinhas, pedir graças ao Santo por nós, pelos nossos familiares e amigos. Aguardamos pacientes na fila para lhe dar um abraço, como manda a tradição.

Regressamos ao albergue para almoçar, mudar a roupa e sapatilhas molhadas. Só ao final da tarde a chuva deu tréguas, fomos então visitar o pórtico e ficamos maravilhados com a sua beleza e imponência.

Nesta viagem como habitualmente fomos fazendo alguns vídeos para a nossa comunidade, não imaginávamos que iriamos ter tantos apoios e seguidores, acabando por ser um mar de gente pelos trilhos das Ondas da Serra.

Cada caminho tem a sua história, as suas demandas e conclusões. O pedido que fizemos ao Santo foi dar-nos algumas respostas e iluminar as nossas decisões, que por vezes são difíceis, mas necessárias. Nem sempre a vida nos dá o que queremos, porque poderá não ser o melhor caminho para nós.

Nos somos adeptos do Ecumenismo, porque muitos dos ensinamos das diferentes religiões defendem os mesmos valores. No SwáSthya Yôga existe uma norma ética que se chama íshwara pranidhána, depois de colocarmos todas as nossas ações num objetivo e não for possível realizá-lo, chega o momento de o deixar fluir e entregar o fruto das nossas ações nas mãos do Universo. Essa força com o tempo irá ou não fazer cumprir os seus desígnios, pode o mundo dar muitas voltas, se não se cumprir é porque não era esse o destino e melhor para nós.

"Quando a consciência está tranquila por ter tentado tudo e ainda assim não se haver conseguido o resultado ideal; quando a pessoa está literalmente impossibilitada de obter melhores consequências, esse é o momento de entregar o fruto das suas ações a uma vontade maior que a sua, cujos desígnios muitas vezes são incompreensíveis." Mestre DeRose (SwáSthya Yôga)

Regressamos no quinto dia de comboio, passando por magnificas paisagens iluminadas pelo sol, na Ria de Vigo, o Rio Minho, a costa até Viana do Castelo, as aldeias perdidas nas serras, sempre protegidas pela sua capela. Chegamos tranquilos e já estamos a pensar quando vamos regressar, desta vez pelo caminho da costa. Bom caminho peregrinos.

 

 

 

Ponte Dom Zameiro, sobre o Rio Ave em Vila do Conde

Serra da Labruja – Ponte de Lima

Albergue Santiago de Vilavella - Redondela

Pontevedra

Catedral de Santiago de Compostela

Estação de comboios de Santiago de Compostela

Lida 659 vezes

Autor

Ondas da Serra

Ondas da Serra® é um Orgão de Comunicação Social periódico, distribuído electronicamente, que visa através da inserção de notícias, promover a identidade regional, o turismo, e a divulgação/defesa do património natural, arquitectónico, pessoas, animais e tradições, dos concelhos da região norte do distrito de Aveiro, nomeadamente: Ovar, Santa Maria da Feira, Espinho, São João da Madeira, Oliveira de Azeméis, Vale de Cambra e Arouca e do forma mais geral dos restantes municípios do distrito.

Itens relacionados

A força do caminho e a fraqueza do mundo

Os Caminhos de Santiago exercem em nós uma força que nos impele a visitar regularmente o apóstolo, que reza a lenda descansa na catedral de Compostela. Este ano fizemos a jornada partindo do Porto, seguindo pela costa, saboreando a brisa marítima, o azul infinito do mar e as encostas rochosas à espera de serem por ele reclamadas.

O Cais da Ribeira em Ovar

O Cais da Ribeira de Ovar, filho da ria de Aveiro, em tempos antigos foi um fidalgo abastado, ultrapassado pela importância do vapor que ali perto fez nascer uma estação. A sua construção remonta a 1754 e durante muito tempo teve grande importância no transporte de passageiros e trocas comerciais entre Aveiro, Porto, Régua e outras terras do interior.

Arouca | Frecha da Mizarela - Uma das maiores cascatas de Aveiro

A Frecha da Mizarela foi esculpida na Serra da Freita em Arouca, perto da aldeia de Albergaria da Serra, onde o Rio Caima despeja brutalmente e destemido as águas no abismo.