Rostos de Albergaria-a-Velha - parte dois

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Esta é a segunda parte do artigo que retrata algumas pessoas que se cruzaram com a equipa do Onda da Serra no trilho PR2 – Rota dos três rios – Albergaria-a-Velha.

O que retivemos desta experiência foi tudo o que está ligado à cultura do milho, porque alguns de nós ainda somos do tempo que brincávamos no meio das folhagens das espigas, víamos maravilhados o homem a levar a água da represa aos pés das plantas, tampando o caminho a com terra e abrindo acola, conduzindo à água para o seu destino, das desfolhadas, da fraca iluminação, daquela atmosfera que nos seduzia composta por carros de bois em madeira e toda a espécie de ferramentas agrícolas, o gado ali perto nos currais por vezes mugia, as vozes graves que faziam lembrar os antigos morgados dos retos agricultores e o vinho que distribuíam pelo povo que ajudava.

Ai saudade de tempos de aldeia, será isto que nos leva para estas terras, não será a única razão, mas será porventura uma das mais poderosas.

  
 

Cremilde Silva

Ribeira de Fráguas possui um extenso e bonito vale, quando iniciamos a segunda parte do PR2 conformo já descrevemos em outro artigo, no vale situado em frente da capela vimos duas mulheres a trabalhar nos seus campos de milho. Uma delas não quis falar connosco nem tirar fotos porque achava que estava malvestida e os filhos poderiam levar a mal, claro que tivemos que respeitar a sua decisão.

Ali perto andava a Cremilde Silva, com 53 anos de idade, que não se importou de falar com o Ondas. Disse andar a mondar o milho porque o mesmo estava muito vasto. Para quem não sabe este procedimento é feito porque por vezes nascem no mesmo local vários pés de milho, o que retira força às plantas e as espigas crescem pequenas.

Aquele terreno onde estava a trabalhar não é seu, mas há muito anos que o cultiva porque essa terra produz muito bem milho, feijão e outros vegetais. Toda a sua vida foi agricultora e atualmente também faz alguns trabalhos de limpeza, nunca trabalhou em fábricas.

A sua família com ajuda de amigos ainda descasca o milho à mão, em certas terras chamasse a isto descamisar e em outras como na nossa desfolhar. Aquela terra produz anualmente certa de 35/40 alqueires de milho devido à sua extensão.

As maiores dificuldades que encontra na sua agricultura é não ter os seus próprios tratores para fazer o trabalho. Está sempre dependente de outras pessoas para realizar as tarefas que envolveram aquela mecanização o que acarreta também os seus custos. Disse que hoje em dia há máquinas para tudo, por um lado é bom, mas por outro perdem-se as tradições.

Já não tem pais e quando era criança os dez irmãos depois da apanha do milho faziam a desfolhada em casa com ajuda de toda a família e amigos, disse que “no fim havia borga e baile com comida e bebida”. Hoje tudo isso se perdeu, embora o Rancho Folclórico de Ribeira de Fráguas ainda faça uma recriação histórica.

 

 

Ildegarda Silva

Ao chegarmos à aldeia do Palhal encontramos uma casa de eventos denominada “Quinta do Palhal”, gerida por Ildegarda Silva que é natural de Vila Nova de Gaia.

A casa onde funciona o estabelecimento foi construída por Ingleses que foram para aquele local para extrair volfrâmio das minas para fazer metal duro. Estes estrangeiros deixaram alguns marcos da sua passagem como foi a sua casa que faz eventos, sendo conhecida na zona por “Casa do Palhal”. Atualmente as minas estão todas desativadas e aquela zona junto ao rio é toda minada.

 

 

Sebastião Marques

Na casa de eventos acima referida também se encontrava ajudar a proprietária Sebastião Maques, que nasceu em Fradelos e conta 74 anos de idade.

Disse-nos que viveu no lugar do Palhal até 1967, altura em que casou e foi para Pinheiro da Bemposta. Trabalhou 10 anos nas minas de metalurgia de 1960 até 1970. Na altura já produziam metal duro que são pastilhas metálicas utilizadas nos tornos para fresar e tornear. Não se considera um antigo mineiro porque quando trabalhou nas mesmas elas já estavam desativadas, tendo só ficado o nome da fábrica “Minas e Metalurgia”.

As minas desativadas são agora aproveitadas por pessoas para fazerem caminhadas pela margem do rio onde se vê as entradas das mesmas.

Em 1970 teve que emigrar até França onde trabalhou 17 anos. Quando regressou a Pinheiro da Bemposta foi trabalhar durante 22 anos para a Faurecia em São João da Madeira.

Agora já está reformado e dá por vezes uma ajuda à Ildegarda Silva já que tem a sua vida orientada.

 

 

A nossa equipa faz muitas caminhadas e algumas ficam situadas fora do âmbito geográfico do nosso projeto. As do nosso distrito são geralmente muito ricas se os incêndios não as tiverem destruído. O caminhante aqui encontra paisagens sempre diferentes. A dada altura do percurso PR2 – Rota dos três rios, encontramos um casal a subir uma pequena encosta com uma escadaria em pedra. O homem levava um machado na mão e ela um grande manado de alfaces e uma foicinha ao ombro.

Joel Pereira

Ele chamava-se Joel Pereira e tem 77 anos e com a machada tinha estado a destacar feijão verde. Na sua vida profissional foi operador de máquinas de serralharia mecânica.

Há 25 anos foi um dos fundadores do Rancho Folclórico de Ribeira de Fráguas, tendo também feito parte da primeira direção, ainda colabora com o mesmo e canta no coro como segunda voz.

O rancho há cerca de 5 anos coma ajuda da ADRITREM restaurou os moinhos do rio de Ribeira de Fráguas onde ele agora ajuda na sua manutenção.

Maria Macedo

Maria Macedo, com 76 anos de idade vive com o marido acima referido no Alto dos Barreiros – Palhal, é domestica e tinha ido apanhar aquele grande manado de alfaces para o seu gado.

 

 

Maria Eugenia Martins

Já tínhamos acabado o percurso quando passou por nós bastante apressada empurrando um carro de mão, Maia Eugénia Martins, com 65 anos, residente em Ribeira de Fráguas. A mesma tinha ido buscar à sua horta, hortaliça, pepinos, curgetes e tomates. Tinha que se apressar pois tinha que sair. Lá falamos com ela ao seu ritmo e não a fizemos demorar demais.

Sempre trabalhou na agricultura, mas disse “ser uma miséria e não dão nada a quem trabalhou nesta porcaria”. Cria gado, porcos, coelhos, galinhas e agora está a criar um touro para seu consumo.

Referiu que gosta da sua terra mas os governos deveriam ajudar quem sempre trabalhou na agricultora. Por várias contingências da vida não descontou e agora não tem nenhuma reforma, alem dos problemas de saúde “encontra-se sem trabalhar e sem poder”.

O que podemos concluir destas pessoas com quem falamos é o sentimento que têm de estarem esquecidas, a falta de medidas eficazes contra o fogo, o despovoamento do interior e as dificuldades que sentem levando-as desde sempre a emigrar. O país não pode ser só o litoral e as grandes metrópoles.

 

 

Leiam também os nossos artigos sobre:

  • PR1 - Rota do Linho em Vilarinho de São Roque, artigo;
  • PR2 - Rota dos três rios - parte um, artigo;
  • PR2 - Rota dos três rios - parte dois, artigo;
  • PR2 - Vida de Inseto, artigo.
  • Rostos de Albergaria-a-Velha - parte um, artigo.
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Autor

Ondas da Serra

Ondas da Serra® é um Orgão de Comunicação Social periódico, distribuído electronicamente, que visa através da inserção de notícias, promover a identidade regional, o turismo, e a divulgação/defesa do património natural, arquitectónico, pessoas, animais e tradições, dos concelhos da região norte do distrito de Aveiro, nomeadamente: Ovar, Santa Maria da Feira, Espinho, São João da Madeira, Oliveira de Azeméis, Vale de Cambra e Arouca e do forma mais geral dos restantes municípios do distrito.

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